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quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Último Grande Monstro

Hoje foi anunciada a morte de Christopher Lee, que aconteceu no dia 7 de junho, devido a problemas respiratórios e no coração.
Lee como o Monstro de Frankenstein

O lendário ator, que para muita gente era o Saruman da série O Senhor dos Anéis e o conde Dookan de Guerra nas Estrelas (na trilogia mais recente), teve uma carreira cinematográfica imensa, participando de mais de 280 filmes, na maioria deles, como o vilão da história.
Na segunda metade da década de 50, Lee foi chamado pela Hammer, uma produtora britânica que queria fazer novas versões dos monstros clássicos do terror que tinham feito um enorme sucesso no cinema trinta anos antes, nos filmes da Universal, o grande estúdio cinematográfico de Hollywood.  Para esse “reboot” dos monstros clássicos, a Hammer contratou o jovem e promissor ator de teatro Christopher Lee, que tinha a altura certa para interpretar... o monstro de Frankenstein em A Maldição de Frankenstein (The Curse de Frankenstein, 1957).
Drácula
(nem precisava dizer, né?)

No ano seguinte, Lee faria o papel mais famoso de sua carreira: o Conde Drácula.
Sua interpretação ficaria tão marcada, que por décadas era a mais icônica da cultura popular. Até hoje, para a maioria, quando se fala “Conde Drácula”, a imagem que vem a cabeça é a de Christopher Lee nos filmes da Hammer. Lee emprestou seu rosto e seu olhar aterrador para o conde vampiro em dez filmes (sendo que inicialmente só queria fazer um), onde a história de Drácula foi contada de recontada de formas que Bram Stoker jamais imaginou. A fidelidade com o original nem sempre era a consideração principal dos filmes, mas isso pouco importava para o público, porque Lee estava lá, e ele era o Drácula, não importando o roteiro, então o filme era bom!

O ator que era o vampiro mais famoso dos anos 1950, 1960 e 1970 também interpretou outros monstros (além da criação do doutor Frankenstein); foi a múmia Kharis em A Múmia (The Mummy, 1959), Doutor Jekyll e Senhor Hyde em O Soro Maldito (I, Monster , 1971), o próprio diabo em Katarsis (1963), o assustador Fu Manchu (em quatro filmes) e monge louco Rasputin em Rasputin, o Monge Louco (Rasputin, The Mad Monk, 1966).
Scaramanga, botando medo em James Bond

E também era formidável quando o assunto era vilões mais humanos. Sua atuação como Scaramanga, o antagonista de James Bond em 007 contra o Homem da Pistola de Ouro (The Man with a Golden Gun, 1974) o colocou entre os melhores vilões de 007.

Lee conseguia passar do aristocrata elegante e refinado para o monstro desumano e cruel com uma facilidade impressionante. Apesar de ser facilmente reconhecido, seja pelo seu porte assustador, sua voz grave e profunda ou seu olhar furioso, cada um de seus vilões era diferente e marcante. Por esse motivo ele consegue ser lembrado por muitos como Scaramanga, como Conde Dookan e Saruman, personagens completamente diferentes, mas que agora não conseguimos imaginar com outro ator.
Fu Manchu

Mesmo interpretando monstros, Lee era uma pessoa completamente diferente dos seus papéis. De família nobre (sua mãe era condessa, o que tornava Lee, tecnicamente, um conde), teve uma educação completa de um cavaleiro que se preze. Documentos atestam que ele é um descendente (distante) de Carlos Magno e, durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como agente secreto da Inglaterra, sendo condecorado várias vezes por serviços prestados à Coroa.
Rasputin

O grande monstro, o conde Drácula do cinema, era também um homem de artes. Adorava literatura (chegou a conhecer J. R. R. Tolkien pessoalmente), teatro, pintura, escultura, música e tinha jardinagem como seu hobby preferido. Na música, era um fã de heavy metal e chegou a gravar quatro discos!

Nunca parou de trabalhar. Sempre atuando, sempre engrandecendo filmes (que nem sempre eram tão bons assim) com sua presença. Olhava e tratava com um carinho enorme seus fãs, fossem dos filmes de terror antigos, fossem da nova trilogia de Guerra nas Estrelas.
Lee foi um dos maiores monstros do cinema, mas na vida real foi uma das pessoas mais incríveis e inesquecíveis que já existiu. 

O mundo hoje perdeu seu maior vampiro. E todos estão tristes por isso.
Lee e Vincent Price, entre filmagens.
Gosto de lembrar dos dois assim.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Uma Editora do Lado Sombrio

Este blog é um lugar onde eu gosto de falar sobre o gênero terror, especialmente em filmes e livros. Basicamente, sobre os filmes e livros que eu gosto, e assuntos relacionados a eles, aos atores, diretores e algumas divagações pseudo filosóficas e opinativas sobre o gênero.
E, já que a minha linha de publicações é essa, preciso falar sobre a editora DarkSide. Aliás, estou até meio atrasado. A Darkside se apresenta como a primeira editora brasileira dedicada inteiramente ao terror e fantasia. Não sei ao certo se a afirmação é correta, mas uma coisa eu posso dizer, eles começaram muito bem com as suas primeiras publicações, e continuam fazendo um trabalho incrível com os títulos que estão publicando. Livros absolutamente lindos, muito bem cuidados, diagramados, traduzidos, adaptados e com um acabamento (papel, capa, fotos, detalhes) formidável.
Olha só que caixas bacanudas!

Meu primeiro contato com a Darkside foi com o livro  Evil Dead – A Morte do Demônio [Arquivos Mortos], que conta os bastidores e como foi o nascimento do filme A Morte do Demônio (Evil Dead, 1981) e suas continuações, escrito por Bill Warren. O livro é um estudo profundo e muito divertido sobre Sam Raimi, sua formação, seus amigos, o que o levou a filmar Evil Dead e todos os problemas que teve, como eles foram resolvidos, curiosidades etc. Imperdível para quem gosta da franquia Evil Dead. E tudo isso numa edição linda de morrer, lançada em duas versões (classic edition, mais simples e limited edition, em capa dura). Edição deliciosa de se ler, e com um cuidado que só confirma o carinho anunciado da editora pelo gênero. Uma publicação de excelente qualidade voltada para os fãs de terror, o que é uma coisa bem rara.

Verificando o que mais a Darkside tinha para oferecer, tive uma mui grata surpresa, porque além do meu (agora adorado) livro sobre Evil Dead, descobri que eles também tinham publicado um livro semelhante sobre a franquia de filmes O Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre), sobre a franquia de Sexta-Feira 13, o livro Os Goonies (sim, o do filme), biografias de J. R. R. Tolkien, Stephen King, do Black Sabbat (a banda), a trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, dois livros sobre serial-killers escrito pela Ilana Casoy, as histórias originais de Tubarão, Psicose e A Noite dos Mortos-vivos. Isso entre muitos outros lançamentos, alguns que ainda estão para sair.
A Força também está com eles.
Ou seja, praticamente uma lista de livros que eu preciso ter! Uma clara dedicação ao gênero do terror e da fantasia, com um respeito, atenção e cuidado que deve ser aplaudido. Além disso, a Darkside se esforça em levar ao público livros que estavam fora de catálogos fazia um bom tempo (como é o caso de Tubarão, de Peter Blenchey, e Psicose, de Robert Bloch) e novidades que dificilmente teríamos contato. E tem mais, eles investem em autores nacionais, como é o caso de Ilana Casoy  e outros (que vou falar na próxima postagem).

Uma editora cujo trabalho merece ser elogiado e prestigiado por qualquer fã de terror que se preze. Uma iniciativa como esta precisa ser incentivada, pra que cresçam e continuem por muitos anos, mostrando que o terror e a fantasia são gêneros fortes e que devem ser levados a sério.
Então, que tal dar uma checada nas publicações pra lá de sensacionais da editora no site deles (e, é claro, procurar na livraria mais próxima)?
O site da editora é este aqui.


P.S.: Não, eu não recebi nada para elogiar os caras, só gostei bastante dos livros e vou falar mais das publicações e lançamentos deles nas próximas postagens.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Defendendo os Filmes de Terror



Esta imagem foi publicada em dois excelentes tumblrs que eu sigo, o Where Beauty & Terror Dance e o GreGGory’s SHOCK! THEATER Aliás, ambos recomendadíssimos, assim como o tumblr do roteirista Steve Niles, o responsável pelo assustador 30 Dias de Noite (os quadrinhos que deram origem ao filme de mesmo nome, igualmente assustador). O site dele foi indicado como tendo publicado também a imagem abaixo, mas eu não encontrei.

A imagem é, na verdade, um artigo publicado em 1963 (não sei ao certo em qual revista), onde Vincent Price defende os filmes de terror.

Pra facilitar a vida de tudo mundo, eu coloquei uma tradução aproximada do texto logo abaixo da imagem.

Hmmm... tem muita coisa a se falar sobre esse artigo, e algum contexto a se deixar claro, então vou guardar pra comentar na próxima postagem (já que a tradução ficou bem grandinha).



Tradução (meio que aproximada e adaptada)

Vincent Price deixa de lado a maquiagem de Hollywood para discutir os filmes de terror.


Em Defesa dos Filmes de Terror

por Vincent Price

   Já é hora de os críticos de filmes de cinema começarem a levar a sério os chamados filmes de “terror” ou “horror”, ou seja, os legítimos filmes desse gênero baseados em clássicos reconhecidos ou histórias originais de nossos principais escritores.

   Duas coisas já foram estabelecidas sobre esses excitantes produtos da indústria cinematográfica: o público e o os profissionais atuando neles os levam a sério e se divertem com eles. Grandes produtoras de filmes, como a American-International Pictures, confirmam que a maioria do público apoia tais filmes, como Mansão do Terror (The Pit and the Pendulum, 1961), Obsessão Macabra (Premature Burial, 1962) e Muralhas do Pavor (Tales of Terror, 1962), todos baseados em obras clássicas de Edgar Allan Poe.

   Por mim, e falo por uma maioria de atores sérios, esses filmes de Poe são divertidos de se fazer e são uma grande fonte de satisfação para mim como ator. Eles representam um grande desafio dramático para mim que filmes comuns, com sua realidade “superficial”, não conseguem oferecer.

   O verdadeiro desafio para qualquer ator digno da sua profissão é a oportunidade de retratar de maneira convincente a “inrealidade”.  Afinal de contas, esta não é a premissa original de atuar, a raison d’etre, ou razão de ser, do ator, a arte do faz de conta?
   
   Um caso perfeito é o meu filme mais recente, O Corvo (The Raven, 1963), baseado no excelente poema de terror de Poe. Eu ainda tive o privilégio adicional de trabalhar neste filme com dois dos melhores atores de Hollywood; Peter Lorre e Boris Karloff, e tenho certeza de que eles também apreciaram o desafio de tornar Edgar Allan Poe crível tanto quanto eu.

   Diferente de outros filmes para o cinema, os filmes de terror ou horror oferecem para os atores sérios a oportunidade única de exercitar seu ofício e testar criticamente sua habilidade de tornar o inacreditável crível.

   Eu também acredito que filmes como O Corvo são importantes para a cultura americana em tempos em que o “método de atuação”, e as histórias sórdidas que o acompanham, é considerado um reflexo verdadeiro da vida americana.  Na verdade, esses “dramas do método” representam apenas uma pequena parcela de nosso meio.

   É nessa época que a qualidade de contos de fada dos escritos de Poe fornece uma válvula de escape divertida, saudável e muito necessária para o público americano.

   Que aqueles que condenam os filmes de terror e suspense lembrem também que, assim como os faroestes, esse tipo de diversão foi responsável pelo sucesso da nossa grandiosa indústria cinematográfica.

  Por mim, eu prefiro levar os jovens a ver um filme de Edgar Allan Poe a qualquer momento do que sujeitá-los aos amores e perversões dos nauseantes habitantes das sarjetas e dos rincões da América. E acredito que a maioria dos americanos decentes também pensa da mesma forma a respeito de divertimento.

   Que tenhamos mais histórias criativas de terror produzidas com nossas grandes mentes e talentos, e menos épicos de decadência corruptores, que apenas consomem nosso tempo.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Sobre Médicos, Monstros e Personalidades Difíceis


O livro O Médico o Monstro (cujo título original é muito mais legal: The Strange Case of Doctor Jekyll and Mister Hyde, que seria mais ou menos O Estranho Caso de Doutor Jekyll e Senhor Hyde), de  Robert Louis Stevenson, é indiscutivelmente um grande clássico da literatura, e uma das bases do gênero fantástico (ou terror, dependendo de algumas considerações). A obra foi adaptada para dezenas de versões no teatro e para o cinema também, gerando espetáculos fantásticos, verdadeiros desfiles de grandes atuações.
Olha o vovô da Drew Barrymore
como o bom doutor no filme de 1920

Confesso que, entre as histórias dos monstros considerados com clássicos, essa nunca foi uma das minhas favoritas.

Concordo que os grandes atores que encarnaram o personagem, desde o lendário John Barrymore (eu sei que tiveram outros antes dele, mas eu gosto de lembrar dele como o primeiro a ser lembrado, oras), passando por Frederich March (ator do clássico de 1931, que ficou mais icônico) até Spencer Tracy, Michael Caine e Jack Palance. Até mesmo Boris Karloff já interpretou o médico de duas personalidades, na comédia Abbott e Costello encontram Dr. Jekill e Mr. Hyde (de 1953).  São performances inesquecíveis e marcantes, e não tem como falar mal do talento dos atores citados (talvez do Jack Palance...), mas o problema, pra mim, nunca foram os atores, mas a história.

Karloff, assustando Abbott e
Costello como dr. Jekill.
Eu, mesmo quando era bem mais jovem, não conseguia “comprar” a história de um médico que tinha feito uma fórmula que eliminasse o seu lado mau, como se fosse uma doença ou uma toxina. Ora, ser bom ou mau depende de escolhas feitas pela pessoa, e os próprios conceitos de “bom” ou “mau” variam muito, de acordo com a pessoa, cultura, tempo, educação etc. E também não via o Mister Hyde suficientemente maligno para ser a encarnação de toda a maldade do Doutor Jekyll. A história me soava falsa, meio exagerada. Se eu dissesse o enredo básico para um editor, ele jamais aceitaria publicá-la.

Então, se eu não gosto, por que raios estou enrolando tanto pra explicar isso? Simples, porque mesmo eu não gostando da história original, acabei colocando entre as minhas séries favoritas dos últimos tempos justamente uma versão do famoso caso estranho do doutor Jekyll e Mr. Hyde. Pois é, eu percebo a ironia de tudo isso…

Acidentalmente, vi passando na TV a cabo (no Multishow, se não me engano) um episódio de Jekyll, minissérie em seis episódios que trazia a história do pobre doutor bonzinho e seu alter ego malvado para os dias atuais. Ou pelo menos atual na época, já que a série é de 2007.  E, pra variar, a série era uma produção da BBC.

Em Jekyll, um preocupado doutor Tom Jackman contrata uma enfermeira para vigiá-lo durante uns certos períodos de tempo em que ele... não é bem ele. Intrigada, a enfermeira começa a perceber que não é um caso de múltiplas personalidades, mas um problema mais estranho. Jackman se transforma em outra pessoa, não apenas psicologicamente, mas também fisicamente, demonstrando habilidades extraordinárias e impressionantes. Esse alter ego tem uma personalidade própria e complicada, oras sendo ameaçador, perigoso e selvagem para em seguida ser protetor, incrivelmente astuto e articulado. Comentando a semelhança do caso com o mostrado no livro de Stevenson, essa personalidade acaba adotando o nome de “Hyde”.

Não parece um cara legal?
Daí pra frente, a trama se complica, envolvendo certas reviravoltas bem interessantes e curiosas, mas o grande destaque mesmo é a forma como é mostrada a diferença entre Jekyll, quer dizer, Jackman, e Hyde. Interpretados pelo mesmo ator (o irlandês James Nesbitt, pouco conhecido por aqui, lembrado talvez por sua participação em A Fortuna de Ned) os dois personagens são totalmente diferentes, e mesmo em uma cena passada numa sala escura, pode-se notar que não é mais o bom doutor que está ali, mas um Hyde tremendamente furioso.

Nesbitt não muda apenas sua voz ou despenteia o cabelo, mas parece aumentar o seu porte físico! Ele anda de forma diferente, usa linguagem corporal distinta para cada personalidade… até mesmo o olhar pra câmera é outro. Uma interpretação fantástica, que rendeu inúmeros elogios e indicações de prêmios para Nesbitt e para a série.
É só não deixá-lo irritado. Você não vai gostar
de vê-lo irritado...

Além disso, a simples noção de “um soro para separar o lado bom do lado mau da pessoa” foi aprimorada no genial roteiro (mais um trabalho magistral do genial Steven Moffat, que tem o meu respeito, com uma única exceção), que atualizou a história, colocou o(s) personagem(ns) em situações novas e mesmo assim manteve o clima de suspense meio sobrenatural e meio policial da história, com elementos dois gêneros, colocando mais alguns.

Apesar de se chamar Jekyll, o astro da série é, sem a menor sombra de dúvida, o “novo” Mr. Hyde. Um personagem complexo e simples ao mesmo tempo, ele não é exatamente maligno. Ele não é “mau porque é mau” ou porque “é desse jeito e acabou”, ele tem motivações e vontades diferentes do que está acostumado a encontrar em pessoas... normais, ele não tem travas morais ou questionamentos sociais, o que somado a um conjunto de habilidades físicas extraordinárias, o torna um ser muito, muito perigoso. Mesmo assim, você fica morrendo de vontade para ver o que ele vai fazer em certas situações, quase que torcendo pra ele (hmm... quase nada, fica é mesmo torcendo pra ele). E duvido que alguém não torça pro Hyde depois da cena no zoológico.

O box nacional com a série completa.
Mais uma vez, é uma série britânica genial que passou meio que batida por aqui, sendo exibida com muito pouco destaque, e ainda assim, num canal de TV a cabo. Como não tinha nenhum ator famoso, de filmes famosos, dificilmente chamaria a atenção das emissoras e das distribuidoras de filmes.

Animado com o sucesso de Sherlock, Life on Mars e Doctor Who, todos lançados pela distribuidora Log On, eu estava prestes a escrever pra eles, sugerir Jekyll como próximo lançamento, tentar fazer uma campanhazinha pela série, ou algo assim. E qual não foi a minha surpresa, ao entrar na página da Log On para mandar uma mensagem, de encontrar o anúncio (com direito a trailer, dá uma olhada aqui ó)... do lançamento do box de Jekyll!

Isso mesmo, Jekyll está a venda nas lojas brasileiras, em um box com os seis episódios, a série completa! Depois de tudo que eu escrevi, nem precisa dizer que é pra lá de recomendada, né? (puxa, do jeito que eu fico elogiando as séries britânicas aqui, vão pensar que eu só estou aqui pra fazer propaganda pra Log On...)

Uma versão tão bacana, tão legal e com atuações tão espetaculares que conseguiu mudar retroativamente minha opinião sobre a obra original! Mesmo com a desculpinha do soro, a proposta até que é interessante e pode render excelentes histórias. E sem esquecer que foi esse livro que inspirou Stan Lee a criar o Incrível Hulk.

Não parece que ele vai dizer
"Acredite, se Quiser"?
Agora, só me falta juntar coragem para conseguir assistir (sem rir) a versão com o Jack Palance.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Dois Homens Horríveis...

Ou nem tanto...

Essa pérola eu precisava colocar no Gabinete de qualquer jeito!

Enviado para mim pelo meu amigo e colega Fabiano Denardin, o "vídeo" (sim, entre aspas, porque tem só o som) mostra dois grandes monstros  clássicos, Bela Lugosi e Boris Karloff cantando We're Horrible Men.

Eles não eram homens horríveis, mas cantores horríveis! Ainda bem que a dupla não pensou em seguir a carreira musical...











Clique aqui para ouvir Bela e Boris cantando (por sua própria conta e risco...)


segunda-feira, 12 de março de 2012

De volta aos trabalhos...



E olha que isso foi antes de começar
 a jogar World of Warcraft...
Eu disse que era um péssimo blogueiro. Fiquei um bom tempo sem colocar nada no Gabinete, nem uma palavrinha sequer sobre filmes, livros, jogos, quadrinhos, séries e outras coisas que fazem parte da minha vida. E tudo isso sem grandes motivos além de pura e simples falta de tempo.

Mas, como nem toda a preguiça do mundo dura pra sempre, eu estou de volta com alguns assuntos para comentar.

Viu só? Essa minha demora em postar algo nem foi tão ruim assim, me deu tempo de achar um monte de coisa interessante pra comentar. E, se tudo correr conforme o planejado, não fico mais tanto tempo sem publicar novos textos.

...e aos temas recorrentes

Um dos textos meus que rendeu uma boa discussão foi o sobre refilmagens. Curiosamente, vi dois filmes que ilustraram direitinho o que eu disse.

O Colin Farrell como o vampiro
pedreiro mais cafajeste possível...
Um deles mostrava como uma refilmagem pode ficar bacana e divertida, sem estragar as ideias do filme original, mas mostrando-as de outra forma, com outra visão. Estou me referindo a A Hora do Espanto 3D (Fright Night 3D), que atualizou e modernizou a história de terror com toques de comédia de um garoto que descobre que o vizinho que acabou de se mudar para a casa ao lado é um vampiro. Um bom elenco, um ritmo muito bem conduzido pelo diretor e um filme com uma boa dose de estilo próprio e momentos divertidos.

O outro filme serve pra mostrar exatamente como tudo pode dar errado. Não é exatamente uma refilmagem, mas uma prequel (termo feio, prefiro utilizar “prelúdio”, como o grande editor Fernando Lopes me ensinou): A Coisa (The Thing). O “original” de John Carpenter (que por sua vez era uma refilmagem de O Monstro do Ártico) marcou uma época em vários sentidos; estilo de narrativa, efeitos especiais, etc., e ainda hoje é considerado um dos melhores da ficção científica ou do terror. Um prelúdio daquela história simples e assustadora certamente daria um ótimo filme, não? Bem... não.

"Vou ficar fazendo cara de conteúdo
para ver se convenço..."
Esse prelúdio é um filme facilmente esquecível, onde tudo acontece rápido demais, sem convencer o espectador e com pressa. Parece que queriam ficar mostrando a tal da coisa (sem piadas de duplo sentido aqui) o tempo todo, ou o cenário, ou a nave legal, ou como eles gastaram em efeitos especiais... e esqueceram de pequenos detalhes, como história, roteiro, trama, personagens bacanas e – puxa, é mesmo! – assustar o espectador. Afinal, era pra ser um filme de terror, não? Em termos de ritmo e de “causar desespero num lugar inóspito e gelado que pode te matar”, Terror na Antártida (Whiteout), de 2009, se deu muito melhor. E nem tinha monstro. E tinha a Kate Beckinsale.

Se estava pensando em ver esse novo filme, melhor rever o antigo, do John Carpenter e que, mesmo tendo trinta anos, dá um banho no mais recente. Mesmo sem a Kate Beckinsale. 



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

(Re)Fazendo História

Tem uma coisa que me incomoda muito quando leio uma resenha ou crítica de um filme: a falta de informação de quem escreveu. Principalmente quando essa falta de informação leva a conclusões erradas e opiniões mais erradas ainda. E ainda mais atualmente, quando não é exatamente difícil se conseguir informação sobre praticamente qualquer assunto.
Para ilustrar isso, eu vou citar um exemplo. Melhor, dois exemplos num mesmo tópico: remakes.
Eu cansei de ouvir que “Hollywood hoje só pensa em fazer remakes” ou que a “moda hoje em dia é fazer remakes de qualquer coisa”, e pra completar essa eventual revolta (e talvez justificá-la), aparece a frase de que “eles estão sem criatividade para fazer filmes novos” ou algo parecido com isso.
Muita gente parece associar remakes com sinônimo de filmes ruins ou que não merecem ser vistos (afinal, o original é sempre muuuuuito melhor), com caça-níqueis feitos apenas para arrancar dinheiro dos espectadores, ou até mesmo um desrespeito com grandes obras, grandes diretores etc. E também com uma "moda" recente. Na verdade, a coisa não é bem assim.
Peter Lorre na primeira versão de
O Homem que Sabia Demais, de 1934
Fico surpreso como não se percebe (ou se esquece) que grandes filmes da história do cinema eram remakes. Grandes diretores fizeram suas próprias versões e interpretações de outros filmes e foram aclamados por isso. Aliás, o teatro sempre faz “remakes” de peças clássicas, e isso não parece incomodar os críticos e os pretensos entendidos.
Por exemplo, Alfred Hitchcock filmou O Homem que Sabia Demais em 1934, mas decidiu refazer o próprio filme em 1954, numa versão que ficou mais famosa, com James Stewart e Doris Day. Ainda ficando em Hitchcock, Disque M para Matar (1954) também é uma versão da mesma história, que já tinha sido feita em 1952.
Outro filme pouco lembrado como sendo um remake é o clássico da Ficção Científica Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982) de John Carpenter, que já tinha surgido como O Monstro do Ártico (The Thing, 1952). O filme de Carpenter é considerado um dos marcos da ficção/terror, uma verdadeira jóia criativa que envelheceu muito bem, podendo facilmente assustar platéias atuais (e o qual terá uma nova versão - um prequel, na verdade - em breve).
E que tal remakes triplos? O filme (fraquinho) A Casa de Cera (House of Wax, 2005) é uma versão de Museu de Cera (House of Wax, 1953), que por sua vez também é um remake de Os Crimes do Museu (Mystery of the Wax Museum, 1933)!

Enigma de Outro Mundo (1982) - um filme irretocável que -
olha que surpresa! - é uma refilmagem.
Se for pra ficar enumerando remakes, a lista é gigantesca, e com várias surpresas para o fã incauto de cinema. A questão aqui é não dizer qual filme é ou não uma versão desse ou daquele outro filme, mas mostrar que essa prática não é uma moda atual, e que não é de hoje que Hollywood reutiliza histórias. O cinema herdou muitas práticas do teatro, modificando-as para melhor se adequar a sua própria linguagem, então não é de se surpreender que a ideia de refazer uma história ou dar uma nova versão a ela seja tão comum e esteja presente em toda a história do cinema.
E como dá pra perceber pelos títulos que citei, nem todos os remakes são ruins, carecem de criatividade e são versões pioradas de algum clássico muito melhor. Em alguns casos, o remake é muito melhor e acabou ficando muito mais famoso e marcante do que o original. Poxa vida, Alfred Hitchcock achou que valia a pena refazer um filme dele!
Os critérios pra se avaliar um remake devem ser os mesmos utilizados para qualquer outro filme, e não se deixar levar por preconceitos bobos do tipo “ah, é um remake então é ruim”. Claro que existem versões que ficaram terríveis, bem piores do que os originais (como foi o caso de Psicose) e remakes que são totalmente desnecessários (como foi o caso de Psicose), mas isso na impede de sair bons filmes com histórias que já foram mostradas antes.
Psicose, de 1998. Um remake desnecessário e chato.
Já falei que esse filme é ruim?
O único fator a mais que um remake deve ter além de um filme “não-remake” é o seguinte: deve haver um motivo para se fazer o remake. O diretor tem uma nova abordagem da história, acha que vale a pena fazer uma versão atualizada, ou com outro tipo de direcionamento, ou até mesmo quando se acha que, com as técnicas atuais, a história ficaria melhor.
Fazer por fazer, só porque conseguiu um ator da moda pra participar dele, ou porque o nome é forte (uma eventual “certeza” de atrair público), ou pra colocar um elenco adolescente ou algo assim, é uma receita pra fracasso. Mas, pensando bem, esses elementos fazem qualquer tipo de filme ficar ruim de doer, não?

sábado, 2 de julho de 2011

Aventuras de RPG que eu adoro: Ravenloft

Minha ideia inicial era fazer listas de assuntos relacionados ao RPG, começando pelas cinco aventuras que eu mais gostei de mestrar, e falando um pouco a respeito de cada uma, citando coisas divertidas que aconteceram e etc.
Mas aí me deparei com dois problemas: primeiro: estava ficando difícil achar apenas cinco, já que tive excelentes experiências com várias aventuras. E segundo: estava me alongando demais nos comentários e explicações de cada aventura.
Então me veio a solução: porque não falar de apenas uma aventura por vez? Como isso me pareceu muito mais interessante, então é exatamente o que vou fazer. Ou melhor, farei uma série de postagens com experiências e opiniões pessoais de algumas aventuras de RPG que mestrei ou joguei ou simplesmente li e achei bacana.
Um aviso; não é segredo algum que eu sou um grande fã do D&D e que ele é o meu cenário/sistema favorito. Então, boa parte das aventuras que comentarei é de D&D, da primeira até a terceira edição, com algumas outras ocasionais publicações do sistema d20.
Conde Strahd, numa belíssima ilustração de Clyde Caldwell
Peço desculpas para quem não conhece RPG e segue o Gabinete, por aquela sensação de “não sei nada do que ele está falando”, mas imagine que são apenas livros ou revistas ou filmes sobre os quais eu estou opinando.

Ravenloft, o terrível castelo assombrado.

Em 1983, o casal Tracy e Laura Hickman escreveu uma aventura bem diferente do que era comum no D&D da época: Ravenloft (o módulo identificado pelo código I6). Sem saber, eles estavam fazendo uma das melhores e mais famosas aventuras do hobby, que já foi mencionada, copiada e parodiada de tudo quanto é forma possível.
Os heróis chegavam à isolada vila de Baróvia e descobrem que estão presos, só podendo sair de lá se derrotassem o terrível senhor do local, o poderoso vampiro Conde Strahd von Zarovich, para isso tendo que invadir seu castelo povoado de inúmeras criaturas terríveis. Para conseguir enfrentar o tal conde, os heróis se consultavam com ciganos (com direito a leitura de cartas), descobriam parte do passado do vilão e resolviam pequenas missões na vila.
E eram justamente esses elementos que diferenciavam Ravenloft das aventuras publicadas anteriormente. A “leitura” de cartas podia mudar praticamente toda a aventura, alterando o lugar onde os jogadores poderiam encontrar itens e artefatos importantes para a luta contra Strahd, e alterava os próprios planos do lorde vampiro. Ou seja, a aventura podia ser jogada várias vezes, sendo diferente em cada sessão.
A fachada nada convidativa do Castelo Ravenloft,
por Ralph  Horsley

Mas o ponto mais interessante era, sem dúvida, a história. Claramente (e assumidamente) inspirada em Drácula (história real e fantasiosa), o Conde Strahd era um antagonista memorável, inteligente, ardiloso, maligno, arrogante, poderoso, cheio de recursos e aliados e, se interpretado e usado corretamente, quase impossível de ser derrotado. Suas únicas vulnerabilidades são trechos do seu passado, que ainda o atormentam e que os heróis podiam usar contra ele. Não era um simples orc, ou dragão ou gigante, que podia ser facilmente derrotado com a combinação certa de magias e espadas.
Apesar de ser uma clara versão de Drácula para o AD&D, Strahd tinha personalidade e carisma (dentro do possível). Não era um simples monte de números e estatísticas, nem um reles dragão que estava lá só pra tentar matar os heróis. Strahd era o personagem principal de sua história, enquanto os jogadores eram apenas… convidados especiais para aquele episódio. 
O módulo I6 foi um dos maiores sucessos da época, o motivou a TSR a lançar uma continuação em 1986, Ravenloft II: The House on Griphon Hill, onde a coisa ficava ainda mais estranha, com Strahd sendo “dividido” em duas versões, uma maligna e outra boazinha, e encontros bem estranhos com inúmeros tipos de mortos-vivos.

A caixa que tornou Ravenloft um cenário completo, com mais
domínios, mapas, imagens dos outros vilões...
Ravenloft, o terrível cenário assombrado! 
Em 1990 foi lançado todo um cenário alicerçado em Ravenloft (que compartilhava seu nome), onde vários reinos (ou melhor, domínios) tinham vilões que eram versões de monstros clássicos do terror, reimaginados dentro de lógica do AD&D. Eles estavam aprisionados em seus reinos, amaldiçoados por sua maldade e por seus atos e condenados a eternamente… enfrentar grupos de heróis que apareciam de tempos em tempos.
Com excelentes aventuras e suplementos, Ravenloft (o cenário) tinha histórias incríveis, que facilmente rivalizavam em qualidade com suas fontes inspiradoras. Além de versões de monstros clássicos, alguns vilões retirados da mitologia do AD&D receberam um espetacular tratamento no cenário, como Harkon Lucas, o manipulador lobo metamorfo, Azalin, o tirânico lich e Jacqueline Renier, a sedutora mulher-rato.

E tudo isso começou com uma simples aventura de se invadir o castelo e destruir o vampiro malvado.

Atualmente o cenário e a linha de produtos foi descontinuada, não antes de ter sua versão para a segunda e terceira edição do D&D. Mas Ravenloft (a aventura) ainda persiste, seja em sua versão pra segunda edição (com o nome House of Strahd), ou para a terceira (Expedition to Castle Ravenloft), ou até mesmo em sua versão como jogo de tabuleiro (chamada apenas Castle Ravenloft).
 
Respectivamente: edição comemorativa, versão para o AD&D 2a edição
 e capa dura para a 3a edição.
Parece que von Zarovich não envelheceu muito bem...
Como mestre e jogador, já presenciei alguns momentos… curiosos dessa aventura, graças à incrível imaginação caótica dos jogadores, ou a sua tremenda falta de sorte:

Momento assustador: o personagem de um dos jogadores, ao entrar em uma cripta, é teleportado para outra cripta, cheia de monstros mortos-vivos que o atacam de imediato. Detalhe, o personagem é teleportado sem seu equipamento e roupas. Em seu lugar, um morto-vivo aparece vestindo as roupas e equipamento do herói desaparecido. Os seus colegas ficam com a impressão que o amigo virou um morto-vivo!

Momento engraçado: um dos jogadores, cujo personagem era um bárbaro incrivelmente poderoso, depois de enfrentar um ataque de mortos-vivos a vila de Baróvia, resolve comemorar e vai a uma casa de meretrício, sem desconfiar que as prostitutas eram vampiras controladas pelo Conde Strahd. Ele voltou na manhã seguinte fraquinho, fraquinho...

"Eles invadem o MEU castelo e eu é que sou o vilão..."
Momento “como assim?”: usando um artefato mágico poderoso de efeitos imprevisíveis, um dos jogadores conseguiu fazer que o vampiro Strahd voltasse vida... como um guerreiro e feiticeiro de poder assombroso (por 24 horas). Toca o Strahd mudar toda sua estratégia pra tentar derrotar os heróis...


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Aniversariantes Assustadores

Estou meio sem tempo para fazer uma postagem decente, mas não podia deixar em branco o dia de hoje, que é aniversário de dois dos meus atores favoritos.

Então, só para fazer uma rápida homenagem...

Meus mais sinceros parabéns ao sir Christopher Frank Carandini Lee, que hoje completa 89 anos...


E ao centenário do nascimento do inigualável Rei do Grand Guignol,Vincent Price.

domingo, 17 de abril de 2011

Mais de vinte anos esperando o metrô…

(publicado originalmente em 3 de março de 2011)

Não é segredo algum que um dos meus escritores de terror favorito é Clive Barker, bem ao lado de H. P. Lovecraft. Falando a verdade, acho que o Barker tem um pouquinho de vantagem, não por questões técnicas ou importância na literatura de terror ou algo assim É só gosto pessoal mesmo.

O primeiro volume de uma assustadora
antologia de contos de terror.
Clive Barker tem uma característica que me atrai muito: sua criatividade estranha e bizarra. Ele inventa situações e, principalmente, conceitos que são tão esdrúxulos que tornam suas histórias e contos (e mais recentemente os seus romances longos) únicos e memoráveis. E não é só isso, o quê alienígena e distanciado que ele impõe nas suas histórias colabora ainda mais com o clima de estranheza que deixa tudo ainda mais assustador.

Nem sempre é bom o leitor ficar perdido demais ao ler um livro, senão ele se cansa e larga a leitura, mas no caso de Barker, ele tem outros pontos que conseguem prender a atenção. Um deles é justamente a mesma estranheza que pode gerar essa confusão! A coisa é tão diferente e bizarra, que se tem aquela vontade de tentar entender, mesmo que a resposta não seja a coisa mais agradável do mundo.

Bom, se essa capacidade de criar coisas e histórias estranhas e bizarras é uma das características mais marcantes no trabalho de Barker, também é uma maldição para o escritor. Por conta disso, fica difícil termos boas adaptações cinematográficas das espetaculares histórias saídas da mente desse autor insano. A coisa chegou num ponto que o próprio Clive Barker decidiu se tornar diretor, depois de dois resultados pra lá de sofríveis (estragando inclusive um de seus melhores contos, Cabeça Descarnada), Barker meteu as caras e dirigiu uma adaptação de Hellbound Heart, noveleta que ele tinha escrito pensando na tela grande. O resultado foi um dos mais marcantes e criativos filmes de terror da década de 1980, Hellraiser – Renascido do Inferno.
Muito ruim, não? Barker também achou,
 disse que faria melhor... e fez!

Mas essa “maldição” continuou muito ativa, permeando todas as outras tentativas de adaptação de obras de Barker, inclusive quando o diretor era o próprio Barker, que não conseguiu acertar a mão em Raça das Trevas (Nightbreed, 1990, que depois eu vou falar mais a respeito) e nem em O Mestre das Ilusões (Lord of Illusions, 1995). Mesmo sendo fã do trabalho dele e tendo um enorme interesse em todas as filmagens baseadas em seus livros, não deixo de reparar como elas geram filmes fracos. Nenhum chegou aos pés do primeiro Hellraiser, por melhor que fossem. Gosto bastante de Candyman, mas ele acaba se perdendo em algum ponto, e fica apenas um filme de sustinhos, novamente desperdiçando uma excelente história e um personagem com um tremendo potencial. O próprio Hellraiser virou uma franquia, com sete continuações, das quais uma é passável, duas são fracas, uma é ruim e as outras três são péssimas.

Metrô de madrugada, Vinnie Jones e um martelo
de carne. Acho que vou descer na próxima estação...
Depois de tudo isso, qual não foi a minha surpresa ao ver O Último Trem (The Midnight Meat Train – 2008), filme pouco divulgado e pouco badalado, onde o diretor Ryûhei Kitamura finalmente conseguiu pegar o clima não apenas do conto que originou o filme, mas da maioria do trabalho de Barker. Um roteiro razoavelmente simples, mas tremendamente bem executado, com atuações ótimas, em especial a de Vinnie Jones, que sem falar uma palavra sequer conseguiu criar um assassino brutal e assustador que gela o sangue de qualquer um com um simples olhar. Tá bom, tá bom… vamos dar um pouco do crédito também pro diretor…

Não é exatamente um filme que atrai grandes multidões ou que irá satisfazer o gosto de todos, mas é fiel ao espírito do que Clive Barker queria quando se dispôs a usar a cadeira do diretor em 1987 para mostrar sua visão distorcida de um inferno sádico onde criaturas torturam almas com promessas de prazeres além da imaginação (e onde os conceitos de “prazer” e “sofrimento” são meio confusos). A história tem poucas explicações e não vá esperando entender tudo o que se passa na tela, não espere ter respostas para cada cena, porque essa é a intenção.

Levou mais de vinte anos, mas finalmente Barker teve uma de suas histórias adaptadas de forma digna. E bizarra. E assustadora.

O Terror, o Terror...

(publicado originalmente em 23 de fevereiro de 2011)

Quando tinha por volta de dez anos, eu era um garoto todo certinho, todo bem comportado. Eu dormia cedo todos os dias, pra não perder a hora de ir pela manhã para a escola, de segunda a sexta.

Mas as sextas-feiras eram dias especiais. Como eu não tinha aula nos sábados e não precisava acordar cedo, então eu podia ficar acordado até “altas horas da noite”. Se formos comparar com hoje em dia, nem era tão tarde assim, mas era um feito e tanto (pelo menos na minha cabeça) conseguir ficar acordado até essas horas, assistindo a filmes que a gente tinha visto que ia passar durante a semana.

Ver esses filmes de “adulto” (e nem estou me referindo a filmes pornô, mas aqueles que eram considerados feitos para adultos, filmes policiais, de ação, drama, etc.) era como uma prova de coragem entre os garotos da escola, dependendo do caso, o assunto do dia. Ainda não existia TV a cabo em grande escala, e poucas famílias tinhas vídeo-cassete, e as escassas oportunidades de se ver um filme que tinha aparecido em revistas ou jornais, era quando os canais de TV aberta conseguiam comprar esses títulos e faziam o maior alarde sobre quando seria exibido. Filmes famosos como Caçadores da Arca Perdida e Os Caça-Fantasmas eram anunciados por semanas antes de irem ao ar e quando passavam era como se fosse um grande evento, a família marcava dia e hora para vê-los.

Se era assim com filmes conhecidos, o que dizer de filmes que ninguém sabia do que se tratava? Como os filmes de terror. E se era motivo de orgulho para um garoto de dez anos conseguir assistir a um filme de “gente grande”, imagina como era quando esse garoto conseguir ver um filme de terror! Ser o primeiro da turma a comentar sobre o filme era um dos melhores momentos do dia.

Eu esperava ansiosamente pela chegada da sexta-feira, porque enquanto os canais de maior audiência deixavam o sábado como o dia para os grandes lançamentos e os filmes mais conhecidos, outros canais reservavam a sexta-feira pra filmes de gêneros específicos, como faroeste e, o meu favorito, o terror.

A Record tinha um horário na noite de sexta-feira para exibir filmes de terror, na maioria das vezes, produções da Hammer (ou outras produtoras contemporâneas a ela) e grandes nomes como Christopher Lee, Peter Cushing e Vincent Price apareciam com frequência nessas produções.

Christopher Lee, Vincent Price, John Carradine e
Peter Cushing em  The  House of Long  Shadows (1983)
E o pequeno Rogerio de dez anos era um assíduo espectador desses filmes todas as sextas. Esperando meu pai chegar do trabalho, eu ficava na sala da casa, naquela mistura de medo e deslumbre. Invariavelmente acabava caindo no sono, e a minha mãe pacientemente me levava pra cama.

Muitos desses filmes eu só fui saber o final anos depois, quando eu, bem mais adulto, encontrava o filme numa locadora ou para vender em lojas ou sebos, e nem mesmo assim (ou talvez por causa disso) eu deixei de adorá-los.

Para mim, esses filmes que deveriam se assustadores se tornaram momentos preciosos da minha infância. Pra mim, as histórias não eram contos monstruosos e hediondos, os vilões não eram seres malignos que encarnavam tudo que existe de ruim na Humanidade. Não via os filmes porque eu era insensível e cruel, porque eu seria uma criança sádica que adorava ver o sofrimento dos outros… nada disso.

Basil Rathbone, Vincent Price, Peter Lorre e Boris Karloff.
Esses adoráveis cavalheiros do Horror Clássico...
O grandes atores desses filmes, Christopher Lee (o eterno Drácula, apesar dos mais jovens só lembrarem dele como o Saruman de O Senhor dos Anéis), Peter Cushing (um dos Van Helsings mais icônicos do cinema, e que já interpretou um vilão que mandava o Darth Vader calar a boca), Boris Karloff (o inesquecível monstro de Frankenstein, cuja verdadeira paixão era escrever histórias infantis) e Vincent Price (o impagável Doutor Phibes, e que na vida real era ator de teatro clássico, gourmet e colecionador de arte) eram minhas companhias nas noites de sexta. Eram como tios divertidos, alguns até engraçados, que estavam ali para me distrair enquanto meu pai não chegava.

Obs.: Haviam outros atores que eu só fui conhecer depois, mas que também tem um lugar nas minhas boas recordações: Peter Lorre, Bela Lugosi, Basil Rathborne, John Carradine, Donald Pleasence e Lon Chaney Jr.

A impressão que eu tinha (principalmente quando Vincent Price fazia aquela sua cara fanfarrona) era que eles estavam me dizendo “oh, você tem que esperar? Então nós vamos contar uma história assustadora e divertida pra você…”. Eram pessoas legais e bacanas, cuja história verdadeira, longe das câmeras, teve uma grande influência na construção do meu caráter e no que eu acabei me tornando. Todos eles eram atores que retratavam monstros ou maníacos, mas eram (e são, já que Christopher Lee ainda está vivo) todos cavalheiros, pessoas de educação e cultura incomparáveis, alguns até vindo de família nobre e com título de “sir”.
Um momento de descontração (um tanto que mórbida) durante as filmagens
da comédia de humor negro Farsa Trágica (The Comedy of Terrors, 1963)  

Se hoje eu gosto de filmes e livros de terror, é porque eu queria esperar meu pai chegar em casa e, em partes, por culpa desses honrados senhores.