terça-feira, 24 de julho de 2012

Deus Salve a Rainha!

Apesar da recente comemoração dos 60 anos do reinado de sua majestade Elizabeth II, esta postagem não fala exatamente sobre a matriarca da família real inglesa.

Recentemente pude dar um pouco mais de atenção à séries e minisséries de origem inglesa. Claro que eu já gostava de diversas séries britânicas antes, sem falar nos inúmeros atores e atrizes fantásticos (que depois de algum tempo eram “descobertos” por Hollywood). O que sempre me chamou a atenção era o fato do filme (ou série, ou minissérie etc.) ser legal, bem escrito, bem dirigido, com bons atores etc.

E, também não era exatamente surpresa que atores britânicos se destacassem em suas atuações. Alguns dos meus atores clássicos favoritos, como Christopher Lee, Boris Karloff e Peter Cushing, são ingleses. Sem mencionar nomes atuais como Bill Nighy, Mark Strong, Simon Pegg, Andy Serkis, James Purefoy, David Tennant e James McAvoy (esses dois últimos escoceses, só para deixar claro e evitar qualquer problema regional).

Mesmo assim, foram duas séries que me chamaram a atenção e abriram caminho... ou melhor, me abriram os olhos para a existência de não apenas de bons filmes e atores, mas de geniais séries para a televisão: Doctor Who e Life on Mars. 



Um Senhor do Tempo


A primeira, Doctor Who, é a mais clássica e importante série para a Ficção Científica do cenário europeu, uma das mais extensas séries da história da televisão, que é citada como influência de alguns dos escritores que eu mais adoro, como Neil Gaiman, Alan Moore, Terry Pratchett, Michael Moorcock, Warren Ellis e Kim Newman (pra citar só alguns).

Doctor Who foi pioneira em vários aspectos, principalmente na utilização de roteiros inteligentes e sacadas geniais para explicar a trama (e as picaretagens da produção). Tudo gira em torno das aventuras do Doutor (apenas “o Doutor”), um alienígena viajante no tempo, que arrebanha diversos companheiros e visita vários momentos da História da Terra e de diversos outros planetas. Com a proposta inicial de ser uma série de ficção que poderia ter partes didáticas (já que eles mostrariam personagens históricos), a série foi lançada em 1963 pela BBC e se tornou um sucesso monstruoso, continuando com temporadas anuais até 1989 (com uma tentativa de revitalização com um longa-metragem em 1996).

Infelizmente, essa fase de Doctor Who nunca foi exibida no Brasil.

Em 2005, o produtor Russell T. Davis conseguiu trazer de volta a série, atualizada e com um ator conceituado (o excelente Christopher Eccleston) para o papel do Doutor. A aposta da BBC em recuperar uma de suas séries mais icônicas deu certo, e Doctor Who ganhou sua segunda temporada, agora com o carismático David Tennant no papel principal.

“Mas como assim, Saladino? Fica mudando o ator que faz esse tal de Doutor o tempo todo?” , me perguntará o leitor aturdido. Curiosamente... sim! No final da temporada de 1966, William Hartnell, que interpretava o Doutor, expressou o desejo de deixar a série. O produtor, que não queria acabar com o seriado, veio com a idea de que como o Doutor era um alienígena, ele tinha a capacidade de regenerar quando estava prestes a morrer, literalmente se tornou outra pessoa para evitar a morte. Assim, o seriado poderia continuar, com outro ator no papel de Doutor. Até hoje, onze atores viveram o alienígena, que seria o último dos Senhores do Tempo, sendo que um dos mais icônicos foi Tom Baker.
Tom Baker, o mais icônico Doutor.
Até já apareceu nos Simpsons.

Então, com a revitalização da série, comecei a acompanhar uma das melhores coisas de FC que já foi feita para a televisão. O produtor atual, Davis, conseguiu equilibrar muito bem o estilo camp da série e o tom atualizado e até pesado em certos momentos. Pessoas morrem em Doctor Who, coisas ruins acontecem, os personagens são complicados e vivos, e mesmo os alienígenas mostram personalidades incrivelmente humanas. Um dos temas mais complicados e arriscados de se lidar na ficção, a viagem no tempo, é abordado de forma magistral, em alguns roteiros que dão banho em muitos filmes.

Doctor Who arrebanhou uma enormidade de novos fãs, ganhou novas e novas temporadas e passou de suas fronteiras, chegando a entrar no restrito mercado norte-americano... e fazendo sucesso por lá! E, para minha surpresa, até mesmo aqui no Brasil temos Doutor Who passando em canal aberto, diariamente (exceto finais de semana), na TV Cultura!

Poucos meses atrás (em 16 de junho), tivemos em São Paulo a primeira convenção de fãs de Doctor Who, a Gallifreycon. E mesmo sendo um evento tremendamente específico, foi muito bom ver uma enorme quantidade de espectadores e fãs novos, muitos deles crianças, que graças a série se interessaram por ficção científica, literatura e assuntos mais diversos, como Física, História e etc.

Doctor Who é uma série incrível, e vai ter uma postagem só pra ela, acreditem. Ela foi a primeira a me chamar a atenção por sua qualidade impressionante.

Sam Tyler (ou John Simm), um policial
literalmente a frente de seu tempo

E um cara (mais ou menos) perdido no tempo


A outra série que me pegou pelo queixo e me surpreendeu totalmente com apenas um episódio (fora de ordem, visto acidentalmente), foi Life on Mars, não acidentalmente, também da BBC.

Inicialmente, eu achava (em minha total e preconceituosa ignorância) que Life on Mars era mais uma série cabeçuda, de premissa esquisita, personagens estranhos e atores que eu nunca tinha visto antes. E para o meu espanto, quando vi acidentalmente um episódio (e resolvi terminar de ver para saber como acabava), percebi que Life on Mars era cabeçuda, de premissa esquisita, personagens estranhos e atores que eu nunca tinha visto antes... mas que isso tudo era muito, MUITO bom!

Sam Tyler, um policial londrino, ao investigar um crime, sofre um acidente, é atingido por um carro e, sem maiores explicações, acorda em 1973, com seu carro tocando (em fita cassete) a música Life on Mars, de David Bowie. Tyler não percebe que a música dá uma dica do que ele vai passar, pois os documentos no carro indicam que ele continua sendo um policial, mas os costumes e metodologia são tão diferentes e alienígenas, que parece que Sam está em outro planeta.

Misturando ficção com policial, a série mostra Sam Tyler (interpretado magistralmente por John Simm) entrando em conflito com os costumes e práticas da época, onde testemunhas são intimidades (pelos policiais!), onde o conceito de assédio sexual não existe e a prática de mexer com as colegas de trabalho era comum e socialmente aceita. Os policiais que trabalham com o Sam beiram ser considerados vilões e canalhas, mas são tão bem escritos e interpretados, que conseguem gerar uma enorme simpatia com espectador. 

Gene Hunt. Você não
queria ele como seu chefe...
Um destaque especial fica para o superior de Sam, Gene Hunt (interpretado por Phillip Glenister) um policial que deveria ter sua foto do lado do verbete “politicamente incorreto” no dicionário. É incrível como um policial violento, corrupto, preconceituoso e autoritário pode acabar se tornando um dos personagens mais legais que apareceram na televisão nos últimos anos. Gene odeia o Sam Tyler, mas também acaba ganhando o seu respeito em certo ponto da série e muda o seu jeito de ser graças ao que ele vê no novato. Glenister arrasou na interpretação, tanto que seu personagem reaparece em Ashes to Ashes, a continuação da série, com uma história similar, só que nos anos 1980.

No decorrer da série, se intensifica a dúvida se Sam realmente voltou ao passado (e como isso aconteceu) ou se ele está em coma e tudo não passa de uma alucinação pra lá de complicada. Durante os crimes que Sam precisa resolver, ou ajudar a resolver, ele ouve frases que seriam de 2006 e vê coisas que não entende. Destoando completamente do estilo e visual realista da série, esses elementos pegam o espectador de surpresa e deixam ainda mais a sensação de tem algo muito errado com Sam Tyler.

A reconstituição do período é um capítulo à parte. Para nós brasileiros, chegou muito pouca coisa da Londres da década de 1970, sendo que nós fomos mais influenciados pelas tendências norte-americanas. Na série, é fascinante ver como era a vida do povo londrino. O povo mesmo, a maioria, e não apenas uma ou outra referência de alguma celebridade. Documentários raramente conseguem ser tão fiel ao espírito dos anos 1970 quanto Life on Mars.

Novamente abordando um tema complicado e que tem uma enorme facilidade de ficar muito ruim (viagem no tempo), a série não menospreza sua audiência, se desenvolve em roteiros inteligentíssimos e primorosamente bem escritos. As atuações, até mesmo dos personagens mais secundários, são inspiradas e dignas de todos os elogios possíveis. Em minha opinião, Life on Mars é uma das melhores coisas que já passou na televisão nos últimos tempos.

E o melhor é que...

Essas duas séries estão disponíveis para o público brasileiro! Doctor Who está passando na TV Cultura diariamente, e além disso, a box com a primeira temporada chegou as lojas pouco antes da Gallifreycon, e pode ser encontrada sem muita dificuldade. As duas temporadas de Life on Mars também estão disponíveis (em DVD e Blu-Ray), num preço bem razoável (na maioria das vezes). As duas séries foram trazidas pela Log On, distribuidora que também é responsável pelas versões nacionais de inúmeras séries e documentários da BBC.
O box nacional da primeira temporada
de Doctor Who, com Eccleston.
A primeira temporada de
Life on Mars, em DVD nacional















São duas séries incríveis que me mostraram que existem muitas outras por aí, esperando serem descobertas e devidamente apreciadas. Nas postagens seguintes, devo comentar algumas outras séries, verdadeiras pérolas inglesas, que eu tive a chance de ver e minhas impressões a respeito delas.

Por enquanto é só, e eu vou ali tomar um chá e depois volto com mais uma postagem quase britânica.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

No Livro Ficou Melhor...



Um dia desses, ouvi uma conversa no ônibus que me fez pensar um pouco. E sim, de vez em quando eu ouço as conversas alheias no ônibus, a caminho de casa. Podem me considerar um intrometido, mas é muito bom para qualquer um que escreve, para ajudar a montar personagens. Considero quase que um trabalho de pesquisa.

Mas, considerações bisbilhoteiras à parte, a conversa me chamou a atenção por um detalhe curioso; eram duas pessoas comentando sobre... livros que tinham lido e como os filmes não eram tão legais, e como eles preferiam os livros. Começaram falando do vindouro filme O Hobbit, de Peter Jackson, e depois desataram a trocar opiniões sobre a trilogia do Senhor dos Anéis e a série Harry Potter.

A partir daí, alguns leitores poderão dizer “E daí? Isso é bem normal, oras...”. Concordo. Mas, naquele instante, comecei a divagar um pouco. Eu meio que estou acostumado a ouvir no ônibus as pessoas comentando o que aconteceu nas novelas, futebol ou programas de televisão que eu não gosto muito. Fico bem feliz ao ver gente (ou melhor, o público) falando de livros, de uma forma legal e descontraída, até mesmo honesta.
O Hobbit...

Não se tratava de um povo nerd (ou aquelas pessoas que posam de nerds porque agora é descolado), mas gente que não parecia pertencer a nenhuma tribo específica, uma dupla que estava falando de como os livros eram melhores que os filmes, citando detalhes como “tal personagem aparece mais”, “isso fica mais claro” e “no filme ele ficou meio bobo”. Como diria um amigo meu, são praticamente “civis” (termo que eu acho engraçado).

Como jornalista e pretenso escritor, me alegra muito ouvir esse tipo de conversa. Vivemos em um país onde o hábito de se ler livros não é exatamente o mais popular e onde divulgar a literatura é um tanto quanto difícil. Ver (ou melhor, escutar) gente no ônibus comentando como livros são mais legais e melhores que filmes é algo que dá esperança de que, mesmo com todos os problemas que os escritores, autores, editores, editores e similares passam, não estejamos num cenário tão ruim, onde os livros estão sim recebendo alguma atenção.
... e O Hobbit.

Não critico quem esteja lendo os livros best-seller, como a série Harry Potter ou Jogos Vorazes, não sou um purista que torce o nariz e diz que isso é “literatura menor”. Esses lançamentos servem pra mostrar que livros são legais e divertidos e abrem caminho para outros livros. Isso é tremendamente importante para todos nós, não só autores e pretensos escritores, mas como para os leitores e para o país, pois ajuda na construção de um povo com mais cultura.
Harry Potter, o livro...
... e Harry Potter, o filme.

Gosto de cinema, filmes e adaptações. De verdade. Grandes filmes vieram de adaptações de grandes livros (e de alguns livros não tão bons assim). Não estou incentivando uma briguinha entre cinema e literatura, pois entendo que são duas mídias diferentes, com suas características próprias e etc. (sendo que “etc.” aqui significa “detalhes e discussão para uma outra postagem). A questão toda é encontrar gente conversando sobre livros, voluntariamente, fora de uma livraria ou biblioteca ou escola, porque é um assunto que gosta.


Eu fiquei feliz mesmo. E vou ficar ainda mais feliz quando, no futuro, alguém comentar que viu um filme baseado num livro meu, e que achou o livro muito melhor


segunda-feira, 12 de março de 2012

De volta aos trabalhos...



E olha que isso foi antes de começar
 a jogar World of Warcraft...
Eu disse que era um péssimo blogueiro. Fiquei um bom tempo sem colocar nada no Gabinete, nem uma palavrinha sequer sobre filmes, livros, jogos, quadrinhos, séries e outras coisas que fazem parte da minha vida. E tudo isso sem grandes motivos além de pura e simples falta de tempo.

Mas, como nem toda a preguiça do mundo dura pra sempre, eu estou de volta com alguns assuntos para comentar.

Viu só? Essa minha demora em postar algo nem foi tão ruim assim, me deu tempo de achar um monte de coisa interessante pra comentar. E, se tudo correr conforme o planejado, não fico mais tanto tempo sem publicar novos textos.

...e aos temas recorrentes

Um dos textos meus que rendeu uma boa discussão foi o sobre refilmagens. Curiosamente, vi dois filmes que ilustraram direitinho o que eu disse.

O Colin Farrell como o vampiro
pedreiro mais cafajeste possível...
Um deles mostrava como uma refilmagem pode ficar bacana e divertida, sem estragar as ideias do filme original, mas mostrando-as de outra forma, com outra visão. Estou me referindo a A Hora do Espanto 3D (Fright Night 3D), que atualizou e modernizou a história de terror com toques de comédia de um garoto que descobre que o vizinho que acabou de se mudar para a casa ao lado é um vampiro. Um bom elenco, um ritmo muito bem conduzido pelo diretor e um filme com uma boa dose de estilo próprio e momentos divertidos.

O outro filme serve pra mostrar exatamente como tudo pode dar errado. Não é exatamente uma refilmagem, mas uma prequel (termo feio, prefiro utilizar “prelúdio”, como o grande editor Fernando Lopes me ensinou): A Coisa (The Thing). O “original” de John Carpenter (que por sua vez era uma refilmagem de O Monstro do Ártico) marcou uma época em vários sentidos; estilo de narrativa, efeitos especiais, etc., e ainda hoje é considerado um dos melhores da ficção científica ou do terror. Um prelúdio daquela história simples e assustadora certamente daria um ótimo filme, não? Bem... não.

"Vou ficar fazendo cara de conteúdo
para ver se convenço..."
Esse prelúdio é um filme facilmente esquecível, onde tudo acontece rápido demais, sem convencer o espectador e com pressa. Parece que queriam ficar mostrando a tal da coisa (sem piadas de duplo sentido aqui) o tempo todo, ou o cenário, ou a nave legal, ou como eles gastaram em efeitos especiais... e esqueceram de pequenos detalhes, como história, roteiro, trama, personagens bacanas e – puxa, é mesmo! – assustar o espectador. Afinal, era pra ser um filme de terror, não? Em termos de ritmo e de “causar desespero num lugar inóspito e gelado que pode te matar”, Terror na Antártida (Whiteout), de 2009, se deu muito melhor. E nem tinha monstro. E tinha a Kate Beckinsale.

Se estava pensando em ver esse novo filme, melhor rever o antigo, do John Carpenter e que, mesmo tendo trinta anos, dá um banho no mais recente. Mesmo sem a Kate Beckinsale. 



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

(Re)Fazendo História

Tem uma coisa que me incomoda muito quando leio uma resenha ou crítica de um filme: a falta de informação de quem escreveu. Principalmente quando essa falta de informação leva a conclusões erradas e opiniões mais erradas ainda. E ainda mais atualmente, quando não é exatamente difícil se conseguir informação sobre praticamente qualquer assunto.
Para ilustrar isso, eu vou citar um exemplo. Melhor, dois exemplos num mesmo tópico: remakes.
Eu cansei de ouvir que “Hollywood hoje só pensa em fazer remakes” ou que a “moda hoje em dia é fazer remakes de qualquer coisa”, e pra completar essa eventual revolta (e talvez justificá-la), aparece a frase de que “eles estão sem criatividade para fazer filmes novos” ou algo parecido com isso.
Muita gente parece associar remakes com sinônimo de filmes ruins ou que não merecem ser vistos (afinal, o original é sempre muuuuuito melhor), com caça-níqueis feitos apenas para arrancar dinheiro dos espectadores, ou até mesmo um desrespeito com grandes obras, grandes diretores etc. E também com uma "moda" recente. Na verdade, a coisa não é bem assim.
Peter Lorre na primeira versão de
O Homem que Sabia Demais, de 1934
Fico surpreso como não se percebe (ou se esquece) que grandes filmes da história do cinema eram remakes. Grandes diretores fizeram suas próprias versões e interpretações de outros filmes e foram aclamados por isso. Aliás, o teatro sempre faz “remakes” de peças clássicas, e isso não parece incomodar os críticos e os pretensos entendidos.
Por exemplo, Alfred Hitchcock filmou O Homem que Sabia Demais em 1934, mas decidiu refazer o próprio filme em 1954, numa versão que ficou mais famosa, com James Stewart e Doris Day. Ainda ficando em Hitchcock, Disque M para Matar (1954) também é uma versão da mesma história, que já tinha sido feita em 1952.
Outro filme pouco lembrado como sendo um remake é o clássico da Ficção Científica Enigma do Outro Mundo (The Thing, 1982) de John Carpenter, que já tinha surgido como O Monstro do Ártico (The Thing, 1952). O filme de Carpenter é considerado um dos marcos da ficção/terror, uma verdadeira jóia criativa que envelheceu muito bem, podendo facilmente assustar platéias atuais (e o qual terá uma nova versão - um prequel, na verdade - em breve).
E que tal remakes triplos? O filme (fraquinho) A Casa de Cera (House of Wax, 2005) é uma versão de Museu de Cera (House of Wax, 1953), que por sua vez também é um remake de Os Crimes do Museu (Mystery of the Wax Museum, 1933)!

Enigma de Outro Mundo (1982) - um filme irretocável que -
olha que surpresa! - é uma refilmagem.
Se for pra ficar enumerando remakes, a lista é gigantesca, e com várias surpresas para o fã incauto de cinema. A questão aqui é não dizer qual filme é ou não uma versão desse ou daquele outro filme, mas mostrar que essa prática não é uma moda atual, e que não é de hoje que Hollywood reutiliza histórias. O cinema herdou muitas práticas do teatro, modificando-as para melhor se adequar a sua própria linguagem, então não é de se surpreender que a ideia de refazer uma história ou dar uma nova versão a ela seja tão comum e esteja presente em toda a história do cinema.
E como dá pra perceber pelos títulos que citei, nem todos os remakes são ruins, carecem de criatividade e são versões pioradas de algum clássico muito melhor. Em alguns casos, o remake é muito melhor e acabou ficando muito mais famoso e marcante do que o original. Poxa vida, Alfred Hitchcock achou que valia a pena refazer um filme dele!
Os critérios pra se avaliar um remake devem ser os mesmos utilizados para qualquer outro filme, e não se deixar levar por preconceitos bobos do tipo “ah, é um remake então é ruim”. Claro que existem versões que ficaram terríveis, bem piores do que os originais (como foi o caso de Psicose) e remakes que são totalmente desnecessários (como foi o caso de Psicose), mas isso na impede de sair bons filmes com histórias que já foram mostradas antes.
Psicose, de 1998. Um remake desnecessário e chato.
Já falei que esse filme é ruim?
O único fator a mais que um remake deve ter além de um filme “não-remake” é o seguinte: deve haver um motivo para se fazer o remake. O diretor tem uma nova abordagem da história, acha que vale a pena fazer uma versão atualizada, ou com outro tipo de direcionamento, ou até mesmo quando se acha que, com as técnicas atuais, a história ficaria melhor.
Fazer por fazer, só porque conseguiu um ator da moda pra participar dele, ou porque o nome é forte (uma eventual “certeza” de atrair público), ou pra colocar um elenco adolescente ou algo assim, é uma receita pra fracasso. Mas, pensando bem, esses elementos fazem qualquer tipo de filme ficar ruim de doer, não?

sábado, 2 de julho de 2011

Aventuras de RPG que eu adoro: Ravenloft

Minha ideia inicial era fazer listas de assuntos relacionados ao RPG, começando pelas cinco aventuras que eu mais gostei de mestrar, e falando um pouco a respeito de cada uma, citando coisas divertidas que aconteceram e etc.
Mas aí me deparei com dois problemas: primeiro: estava ficando difícil achar apenas cinco, já que tive excelentes experiências com várias aventuras. E segundo: estava me alongando demais nos comentários e explicações de cada aventura.
Então me veio a solução: porque não falar de apenas uma aventura por vez? Como isso me pareceu muito mais interessante, então é exatamente o que vou fazer. Ou melhor, farei uma série de postagens com experiências e opiniões pessoais de algumas aventuras de RPG que mestrei ou joguei ou simplesmente li e achei bacana.
Um aviso; não é segredo algum que eu sou um grande fã do D&D e que ele é o meu cenário/sistema favorito. Então, boa parte das aventuras que comentarei é de D&D, da primeira até a terceira edição, com algumas outras ocasionais publicações do sistema d20.
Conde Strahd, numa belíssima ilustração de Clyde Caldwell
Peço desculpas para quem não conhece RPG e segue o Gabinete, por aquela sensação de “não sei nada do que ele está falando”, mas imagine que são apenas livros ou revistas ou filmes sobre os quais eu estou opinando.

Ravenloft, o terrível castelo assombrado.

Em 1983, o casal Tracy e Laura Hickman escreveu uma aventura bem diferente do que era comum no D&D da época: Ravenloft (o módulo identificado pelo código I6). Sem saber, eles estavam fazendo uma das melhores e mais famosas aventuras do hobby, que já foi mencionada, copiada e parodiada de tudo quanto é forma possível.
Os heróis chegavam à isolada vila de Baróvia e descobrem que estão presos, só podendo sair de lá se derrotassem o terrível senhor do local, o poderoso vampiro Conde Strahd von Zarovich, para isso tendo que invadir seu castelo povoado de inúmeras criaturas terríveis. Para conseguir enfrentar o tal conde, os heróis se consultavam com ciganos (com direito a leitura de cartas), descobriam parte do passado do vilão e resolviam pequenas missões na vila.
E eram justamente esses elementos que diferenciavam Ravenloft das aventuras publicadas anteriormente. A “leitura” de cartas podia mudar praticamente toda a aventura, alterando o lugar onde os jogadores poderiam encontrar itens e artefatos importantes para a luta contra Strahd, e alterava os próprios planos do lorde vampiro. Ou seja, a aventura podia ser jogada várias vezes, sendo diferente em cada sessão.
A fachada nada convidativa do Castelo Ravenloft,
por Ralph  Horsley

Mas o ponto mais interessante era, sem dúvida, a história. Claramente (e assumidamente) inspirada em Drácula (história real e fantasiosa), o Conde Strahd era um antagonista memorável, inteligente, ardiloso, maligno, arrogante, poderoso, cheio de recursos e aliados e, se interpretado e usado corretamente, quase impossível de ser derrotado. Suas únicas vulnerabilidades são trechos do seu passado, que ainda o atormentam e que os heróis podiam usar contra ele. Não era um simples orc, ou dragão ou gigante, que podia ser facilmente derrotado com a combinação certa de magias e espadas.
Apesar de ser uma clara versão de Drácula para o AD&D, Strahd tinha personalidade e carisma (dentro do possível). Não era um simples monte de números e estatísticas, nem um reles dragão que estava lá só pra tentar matar os heróis. Strahd era o personagem principal de sua história, enquanto os jogadores eram apenas… convidados especiais para aquele episódio. 
O módulo I6 foi um dos maiores sucessos da época, o motivou a TSR a lançar uma continuação em 1986, Ravenloft II: The House on Griphon Hill, onde a coisa ficava ainda mais estranha, com Strahd sendo “dividido” em duas versões, uma maligna e outra boazinha, e encontros bem estranhos com inúmeros tipos de mortos-vivos.

A caixa que tornou Ravenloft um cenário completo, com mais
domínios, mapas, imagens dos outros vilões...
Ravenloft, o terrível cenário assombrado! 
Em 1990 foi lançado todo um cenário alicerçado em Ravenloft (que compartilhava seu nome), onde vários reinos (ou melhor, domínios) tinham vilões que eram versões de monstros clássicos do terror, reimaginados dentro de lógica do AD&D. Eles estavam aprisionados em seus reinos, amaldiçoados por sua maldade e por seus atos e condenados a eternamente… enfrentar grupos de heróis que apareciam de tempos em tempos.
Com excelentes aventuras e suplementos, Ravenloft (o cenário) tinha histórias incríveis, que facilmente rivalizavam em qualidade com suas fontes inspiradoras. Além de versões de monstros clássicos, alguns vilões retirados da mitologia do AD&D receberam um espetacular tratamento no cenário, como Harkon Lucas, o manipulador lobo metamorfo, Azalin, o tirânico lich e Jacqueline Renier, a sedutora mulher-rato.

E tudo isso começou com uma simples aventura de se invadir o castelo e destruir o vampiro malvado.

Atualmente o cenário e a linha de produtos foi descontinuada, não antes de ter sua versão para a segunda e terceira edição do D&D. Mas Ravenloft (a aventura) ainda persiste, seja em sua versão pra segunda edição (com o nome House of Strahd), ou para a terceira (Expedition to Castle Ravenloft), ou até mesmo em sua versão como jogo de tabuleiro (chamada apenas Castle Ravenloft).
 
Respectivamente: edição comemorativa, versão para o AD&D 2a edição
 e capa dura para a 3a edição.
Parece que von Zarovich não envelheceu muito bem...
Como mestre e jogador, já presenciei alguns momentos… curiosos dessa aventura, graças à incrível imaginação caótica dos jogadores, ou a sua tremenda falta de sorte:

Momento assustador: o personagem de um dos jogadores, ao entrar em uma cripta, é teleportado para outra cripta, cheia de monstros mortos-vivos que o atacam de imediato. Detalhe, o personagem é teleportado sem seu equipamento e roupas. Em seu lugar, um morto-vivo aparece vestindo as roupas e equipamento do herói desaparecido. Os seus colegas ficam com a impressão que o amigo virou um morto-vivo!

Momento engraçado: um dos jogadores, cujo personagem era um bárbaro incrivelmente poderoso, depois de enfrentar um ataque de mortos-vivos a vila de Baróvia, resolve comemorar e vai a uma casa de meretrício, sem desconfiar que as prostitutas eram vampiras controladas pelo Conde Strahd. Ele voltou na manhã seguinte fraquinho, fraquinho...

"Eles invadem o MEU castelo e eu é que sou o vilão..."
Momento “como assim?”: usando um artefato mágico poderoso de efeitos imprevisíveis, um dos jogadores conseguiu fazer que o vampiro Strahd voltasse vida... como um guerreiro e feiticeiro de poder assombroso (por 24 horas). Toca o Strahd mudar toda sua estratégia pra tentar derrotar os heróis...


sexta-feira, 27 de maio de 2011

Aniversariantes Assustadores

Estou meio sem tempo para fazer uma postagem decente, mas não podia deixar em branco o dia de hoje, que é aniversário de dois dos meus atores favoritos.

Então, só para fazer uma rápida homenagem...

Meus mais sinceros parabéns ao sir Christopher Frank Carandini Lee, que hoje completa 89 anos...


E ao centenário do nascimento do inigualável Rei do Grand Guignol,Vincent Price.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

OOK! ou O excelso cavalheiro da Ordem da Grande A’Tuin

Muitos escritores gostam de dizer que almejam um dia ter a mesma habilidade com as palavras de Stephen King, ou de Neil Gaiman, ou Machado de Assis, ou até mesmo de Shakespeare. Eu gostaria de, um dia, escrever tão bem como Terry Pratchett.

Sir Prachett
foto de sua página oficial.
Para quem não conhece, Pratchett é um inglês que começou sua carreira em 1971, e ao longo desses quarenta anos escreveu uma quantidade insana de livros, em grande parte de fantasia, ficção e humor. Normalmente, misturando esses estilos em histórias estranhas, insólitas e engraçadíssimas. Ele consegue fazer um humor tão rápido e inesperado, que muitas vezes é difícil ler um de seus livros sem ter que parar a leitura para rir ou tomar fôlego entre uma piada e outra.

Sir Pratchett (ele recebeu o título da Ordem do Império Britânico em 1998 por sua colaboração para a literatura e o título de cavalheiro em 2007) é um dos autores mais lidos do Reino Unido (pra ser específico, o segundo mais lido) e o sétimo escritor não-americano mais lido nos EUA. Ele já vendeu mais de sessenta milhões de livros, em 37 idiomas diferentes.

Todos esses dados são legais, interessantes e tal (e facilmente adquiridas via Wikipédia), mas um detalhe torna Pratchett ainda mais genial: ele é o criador de Discworld.

O Disco, um mundo chato como uma pizza, que fica apoiado nas costas de quatro elefantes titânicos, que ficam nas costas de uma tartaruga gigantesca, é o cenário de histórias engraçadíssimas, que parodiam todos os elementos de literatura fantástica que se pode lembrar (e alguns de outros estilos também). O primeiro livro foi A Cor da Magia (The Colour of Magic, de 1983) e a série foi seguindo, seguindo e agora, ao todo são 38 livros, com mais um prometido para outubro deste ano. E isso se consideramos apenas os livros tidos “principais”, pois ainda existem outros livros paralelos, voltado para o público infantil,  ou de arte, ou descrevendo a geografia do Disco, ou de receitas…

Uma pequena amostra dos livros de Discworld...
e não é completa!
Além dos livros, Discworld já foi tema de adaptações para rádio, teatro, games para computador, RPG e filmes para televisão. Volta e meia aparecem notícias sobre essa ou aquela adaptação para cinema aparecem aqui e ali…

O cenário é tão vasto, e suas histórias tão diferentes que ainda vou dedicar mais postagens a ele. Por enquanto vamos ficar por aqui e falar mais do autor.

Pratchett não é apenas um escritor divertido, engraçado e hábil com as palavras (sem mencionar rápido!), mas é também uma pessoa com um enorme senso crítico, mostrando questões sérias de forma muito diversa do que estamos acostumados. Ou seja, usando humor, fantasia e personagens engraçados, ele nos faz refletir em assuntos que normalmente deixamos de lado na nossa rotina. Mesmo que seja apenas para vermos o ridículo de certas modas, atitudes, comportamentos, etc.

É curioso que um autor assumidamente cínico e pessimista quanto à humanidade possa escrever de forma tão engraçada e divertida, deixando sempre escapar uma mensagem com um pouco de otimismo e esperança.

E mesmo que ele não admita, esperança parece não ser apenas uma crença vazia para ele (novamente, por mais que ele diga não tê-la). No final de 2007, Pratchett anunciou que é portador de uma forma rara (e incurável) de Mal de Alzheimer, em seus estágios iniciais. Depois de seu anúncio, fez grandes colaborações para o Alzheimer's Research Trust (fundo britânico que patrocina pesquisa sobre a doença) e constantemente chama atenção do público para as diversas polêmicas envolvendo o tratamento.

Ele não se entregou ao autopiedade ou a perspectiva de que sua maior qualidade, sua mente, pode abandoná-lo em pouco tempo. Continua escrevendo sobre os diversos assuntos que gosta, participando das produções baseadas em suas obras e atuando na defesa da causas que escolheu.

Escritor de fantasia, fã de videogames, Astronomia e História Natural, defensor de orangotangos e de pesquisa sobre tratamento de Alzheimer, criador de um dos mundos mais bizarros da literatura, ter seu nome numa espécie pré-histórica de tartaruga... E ainda por cima, é amigo do Neil Gaiman!

E feliz aniversário (um pouco atrasado, ele completou 63 anos em 28 de abril deste ano).

Parabéns por tudo isso e muito obrigado, sir Terence David John Pratchett.
Pratchett por Paul Kidby, ilustrador
oficial da série Discworld 

P.S.: A editora Conrad lançou no Brasil vários livros desse excelentíssimo cavalheiro britânico, e todos são leitura recomendadíssima. Só da série Discworld foram doze livros, além de O Fabuloso Maurício e seus Roedores Letrados e Os Pequenos Homens Livres.

Página oficial de Terry Pratchett: http://www.terrypratchett.co.uk
Página oficial de Paul Kidby e seus trabalhos para Discworld: http://www.paulkidby.com/
Página pessoal de Paul Kidby: http://www.paulkidby.net/