quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Uma Situação Crítica


Na minha postagem mais recente (que agora já não é tão recente assim), eu compartilhei um artigo de Vincent Price reclamando do tratamento da crítica para os filmes de terror. Um artigo publicado em 1963, no qual o Rei do Grand Guignol fazia considerações pouco lisonjeiras aos ditos críticos de cinema da época, que  deveriam começar a levar a sério o gênero do terror.

Price era famoso por ser um perfeito cavalheiro (além de suas atuações divertidas), um parâmetro de boa educação e finesse. Era realmente muito raro encontrar momentos onde ele perdia a sua compostura e demonstrasse qualquer sinal de impaciência. Mas, no texto que publiquei, nota-se a insatisfação do ator com a crítica (dita) especializada em cinema. 

Outra coisa que pode-se notar é a impaciência dele com a exaltação dos críticos do “method acting” e os chamados  “method drama”. Este era um sistema de atuação que estava com algum destaque na época, muito influenciado por técnicas e sistemas de atuação de Constantin Stanislavski e Lee Strasberg, onde o ator utiliza um processo de imersão para criar personagens mais realistas. Price era um ator clássico, com raízes shakespearianas, e com um imenso orgulho do seu estilo histriônico, totalmente adequado a grande maioria dos filmes de terror que fazia e era evidente que seria bem contrário ao method acting.

Não que o sistema seja ruim (muito pelo contrário!), mas a questão aqui não é qual estilo de atuação é melhor que o outro ou nada disso. A questão é a preferência de um em detrimento do outro, e quais critérios usados pra isso, por profissionais que (idealmente) não deveriam ter uma preferência pessoal ao exercerem a função que escolheram como seu trabalho, sua profissão.

Olha só como os críticos deixaram o Tio Vinnie...
E o que me deixou relativamente impressionado, é ver que isso acontecia em 1963… e que continua acontecendo hoje, cinquenta anos depois!

Um crítico de cinema deveria ser uma pessoa preparada para avaliar um filme da maneira mais completa possível, para emitir uma análise especializada, embasada, com argumentos e elementos técnicos, que deveria servir de orientação para uma pessoa interessada em saber se o filme vale a pena, ou que quer apenas saber mais a respeito do que vai ver no cinema.

Claro que isso é a teoria. E claro também eu estou me baseando pelo que seria a coisa ideal. Existem cursos de faculdades dedicados especificamente para a crítica de arte, cursos que ensinam como se compreender e analisar arte. Por diversos motivos que levariam o tempo de um… curso de faculdade para explicar, o cinema também entra na categoria da arte, principalmente no que diz respeito a crítica. Ou melhor, deveria entrar (notou que eu estou falando várias vezes “deveria”, né? É de propósito).

Este aqui foi considerado um filme menor...
mas só quando Steven Spielberg não
era famoso e influente em Hollywood.
Hoje a crítica considera um clássico.
Mas, uma das coisas que me irrita bastante quando vejo uma crítica de cinema, é a falta de embasamento para se analisar um filme. Os críticos mais famosos, conhecidos e badalados, raramente fundamentam suas opiniões nos elementos essenciais e necessários de uma crítica, aqueles que deveriam ter aprendido em uma faculdade, ou pelo menos, se interessado em conhecer, aprendendo de alguma outra forma. A grande parte da crítica é baseada simplesmente no gosto pessoal de quem escreve ou, nos casos mais vergonhosos, copiando outras críticas de nomes mais conhecidos da área, seguindo a moda de elogiar ou detestar determinados filmes do momento.

Aí, me vem aquele leitor e me diz “mas Saladino, qual o problema do cara escrever a opinião dele?”, e eu digo que não tem problema nenhum. Quando a pessoa faz isso deixando claro que é o gosto pessoal dele, uma opinião, é algo totalmente diferente de dizer profissionalmente que o filme é bom ou ruim. Note que a palavra-chave aqui é “profissionalmente”. Qualquer um pode dar sua opinião, mas o crítico assumiu o papel de profissional da opinião (um termo bem contraditório, se pararmos pra pensar), abraçando os seus louros. Mas, deveria então, conhecer pelo menos as responsabilidades que também acompanham esse título.

Raramente eu vejo um crítico entender a proposta do filme, avaliar as referências utilizadas, o estilo em questão, os elementos essenciais do gênero e se a execução do filme cumpriu o seu propósito e sua intenção.  Eu vejo isso, mas nos filmes do gênero que o crítico gosta (e faz questão de anunciar publicamente isso), mas não em outros. Sendo bem claro, gêneros como terror, comédia e ficção, são sempre deixados de lado, considerados indignos da grande crítica. Afinal, pra esses críticos, esses gêneros parecem não ser cinema. Se o cara é crítico de cinema, deveria entender e analisar todos os gêneros, ou então dizer que é crítico de cinema de drama, de arte etc.

Já presenciei um crítico dizer que achou um filme fraco porque tinha o estilo “muito videogame”, mas o filme em questão era justamente a adaptação do jogo Silent Hill (que, para quem não sabe É um jogo de videogame) para o cinema! Essa pessoa não se deu ao trabalho de pensar por alguns segundos que o longa deveria ter a mesma estética do jogo? Que deveria remeter ao jogo que o originou? Que era exatamente essa a proposta? Resultado: uma crítica feita com base em gosto pessoal, que não leva em consideração justamente o público para qual o filme foi feito!

Cinquenta anos se passaram e ainda temos muitos, mas muitos problemas quando paramos pra ler as críticas de cinema e com toda a mística que existe ao redor da figura do crítico de cinema. Grandes nomes chegam a ter a cara de pau de mudar sua avaliação, dependendo da mídia (ou canal) onde estão falando e do momento. Por exemplo: um certo crítico famoso, durante os primeiros dias de exibição de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel fez comentários mornos e cinzentos a respeito do filme, dizendo que era uma aposta ousada e não falando absolutamente nada positivo sobre a obra. Três anos depois, quando a franquia O Senhor dos Anéis já tinha se provado como um sucesso histórico e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei concorria a ONZE Oscars, o mesmo crítico, durante a entrega dos prêmios, afirmou que sempre tinha torcido pela trilogia, pelo trabalho do diretor, que acompanhava a carreira dele e que todos os Oscars que ganhou era um  reconhecimento merecido.
"Quer dizer que a minha atuação só ficou boa no terceiro filme?"

Como assim???

Para quem fica revoltado com os pseudocríticos que infestam a mídia (impressas, visuais , virtuais etc.) por aí, vale lembrar que esse problema não é de hoje, e que já chegou a acabar com a paciência de gente com Vincent Price. Crítica que, no lançamento, trucidou diversos filmes (como Psicose, Planeta dos Macacos e Veludo Azul) que ela mesma depois reconheceria tempos depois como grandes clássicos importantíssimos na história da Sétima Arte.

Então, sobra para nós algumas atitudes a se tomar. Dar para a crítica (dita) especializada a devida atenção, ou seja, a mesma dada a qualquer pessoa que opina sobre um filme, considerando seus gostos, preferências e etc., tirando-a do pedestal de “grande especialista em cinema”.

Podemos também ignorá-la completamente e conferir os filmes nós mesmos, formando a nossa opinião, comentando e discutindo nossas sensações a respeito, fazendo isso com os amigos, em reuniões, conversas, páginas na internet, redes sociais etc. Tudo isso com educação, claro, lembrando que são gostos diferentes, opiniões diferentes que merecem alguma consideração e reflexão (coisa que muito crítico não faz).

Afinal, não é coincidência que “crítico” seja uma palavra com um significado não muito positivo.

Olha outro que sofreu
nas mãos dos críticos...
P.S.: Antes que alguém me… critique,  eu escrevi este artigo como uma reclamação/desabafo dos pseudocríticos que fazem um grande esforço para se mostrar como seres superiores que entendem cinema de uma forma diferente que nós, reles mortais. E sim, eu sei que existem uns poucos críticos de cinema que são excelentes e não fazem isso. Este artigo não é pra eles.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Defendendo os Filmes de Terror



Esta imagem foi publicada em dois excelentes tumblrs que eu sigo, o Where Beauty & Terror Dance e o GreGGory’s SHOCK! THEATER Aliás, ambos recomendadíssimos, assim como o tumblr do roteirista Steve Niles, o responsável pelo assustador 30 Dias de Noite (os quadrinhos que deram origem ao filme de mesmo nome, igualmente assustador). O site dele foi indicado como tendo publicado também a imagem abaixo, mas eu não encontrei.

A imagem é, na verdade, um artigo publicado em 1963 (não sei ao certo em qual revista), onde Vincent Price defende os filmes de terror.

Pra facilitar a vida de tudo mundo, eu coloquei uma tradução aproximada do texto logo abaixo da imagem.

Hmmm... tem muita coisa a se falar sobre esse artigo, e algum contexto a se deixar claro, então vou guardar pra comentar na próxima postagem (já que a tradução ficou bem grandinha).



Tradução (meio que aproximada e adaptada)

Vincent Price deixa de lado a maquiagem de Hollywood para discutir os filmes de terror.


Em Defesa dos Filmes de Terror

por Vincent Price

   Já é hora de os críticos de filmes de cinema começarem a levar a sério os chamados filmes de “terror” ou “horror”, ou seja, os legítimos filmes desse gênero baseados em clássicos reconhecidos ou histórias originais de nossos principais escritores.

   Duas coisas já foram estabelecidas sobre esses excitantes produtos da indústria cinematográfica: o público e o os profissionais atuando neles os levam a sério e se divertem com eles. Grandes produtoras de filmes, como a American-International Pictures, confirmam que a maioria do público apoia tais filmes, como Mansão do Terror (The Pit and the Pendulum, 1961), Obsessão Macabra (Premature Burial, 1962) e Muralhas do Pavor (Tales of Terror, 1962), todos baseados em obras clássicas de Edgar Allan Poe.

   Por mim, e falo por uma maioria de atores sérios, esses filmes de Poe são divertidos de se fazer e são uma grande fonte de satisfação para mim como ator. Eles representam um grande desafio dramático para mim que filmes comuns, com sua realidade “superficial”, não conseguem oferecer.

   O verdadeiro desafio para qualquer ator digno da sua profissão é a oportunidade de retratar de maneira convincente a “inrealidade”.  Afinal de contas, esta não é a premissa original de atuar, a raison d’etre, ou razão de ser, do ator, a arte do faz de conta?
   
   Um caso perfeito é o meu filme mais recente, O Corvo (The Raven, 1963), baseado no excelente poema de terror de Poe. Eu ainda tive o privilégio adicional de trabalhar neste filme com dois dos melhores atores de Hollywood; Peter Lorre e Boris Karloff, e tenho certeza de que eles também apreciaram o desafio de tornar Edgar Allan Poe crível tanto quanto eu.

   Diferente de outros filmes para o cinema, os filmes de terror ou horror oferecem para os atores sérios a oportunidade única de exercitar seu ofício e testar criticamente sua habilidade de tornar o inacreditável crível.

   Eu também acredito que filmes como O Corvo são importantes para a cultura americana em tempos em que o “método de atuação”, e as histórias sórdidas que o acompanham, é considerado um reflexo verdadeiro da vida americana.  Na verdade, esses “dramas do método” representam apenas uma pequena parcela de nosso meio.

   É nessa época que a qualidade de contos de fada dos escritos de Poe fornece uma válvula de escape divertida, saudável e muito necessária para o público americano.

   Que aqueles que condenam os filmes de terror e suspense lembrem também que, assim como os faroestes, esse tipo de diversão foi responsável pelo sucesso da nossa grandiosa indústria cinematográfica.

  Por mim, eu prefiro levar os jovens a ver um filme de Edgar Allan Poe a qualquer momento do que sujeitá-los aos amores e perversões dos nauseantes habitantes das sarjetas e dos rincões da América. E acredito que a maioria dos americanos decentes também pensa da mesma forma a respeito de divertimento.

   Que tenhamos mais histórias criativas de terror produzidas com nossas grandes mentes e talentos, e menos épicos de decadência corruptores, que apenas consomem nosso tempo.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Sobre Médicos, Monstros e Personalidades Difíceis


O livro O Médico o Monstro (cujo título original é muito mais legal: The Strange Case of Doctor Jekyll and Mister Hyde, que seria mais ou menos O Estranho Caso de Doutor Jekyll e Senhor Hyde), de  Robert Louis Stevenson, é indiscutivelmente um grande clássico da literatura, e uma das bases do gênero fantástico (ou terror, dependendo de algumas considerações). A obra foi adaptada para dezenas de versões no teatro e para o cinema também, gerando espetáculos fantásticos, verdadeiros desfiles de grandes atuações.
Olha o vovô da Drew Barrymore
como o bom doutor no filme de 1920

Confesso que, entre as histórias dos monstros considerados com clássicos, essa nunca foi uma das minhas favoritas.

Concordo que os grandes atores que encarnaram o personagem, desde o lendário John Barrymore (eu sei que tiveram outros antes dele, mas eu gosto de lembrar dele como o primeiro a ser lembrado, oras), passando por Frederich March (ator do clássico de 1931, que ficou mais icônico) até Spencer Tracy, Michael Caine e Jack Palance. Até mesmo Boris Karloff já interpretou o médico de duas personalidades, na comédia Abbott e Costello encontram Dr. Jekill e Mr. Hyde (de 1953).  São performances inesquecíveis e marcantes, e não tem como falar mal do talento dos atores citados (talvez do Jack Palance...), mas o problema, pra mim, nunca foram os atores, mas a história.

Karloff, assustando Abbott e
Costello como dr. Jekill.
Eu, mesmo quando era bem mais jovem, não conseguia “comprar” a história de um médico que tinha feito uma fórmula que eliminasse o seu lado mau, como se fosse uma doença ou uma toxina. Ora, ser bom ou mau depende de escolhas feitas pela pessoa, e os próprios conceitos de “bom” ou “mau” variam muito, de acordo com a pessoa, cultura, tempo, educação etc. E também não via o Mister Hyde suficientemente maligno para ser a encarnação de toda a maldade do Doutor Jekyll. A história me soava falsa, meio exagerada. Se eu dissesse o enredo básico para um editor, ele jamais aceitaria publicá-la.

Então, se eu não gosto, por que raios estou enrolando tanto pra explicar isso? Simples, porque mesmo eu não gostando da história original, acabei colocando entre as minhas séries favoritas dos últimos tempos justamente uma versão do famoso caso estranho do doutor Jekyll e Mr. Hyde. Pois é, eu percebo a ironia de tudo isso…

Acidentalmente, vi passando na TV a cabo (no Multishow, se não me engano) um episódio de Jekyll, minissérie em seis episódios que trazia a história do pobre doutor bonzinho e seu alter ego malvado para os dias atuais. Ou pelo menos atual na época, já que a série é de 2007.  E, pra variar, a série era uma produção da BBC.

Em Jekyll, um preocupado doutor Tom Jackman contrata uma enfermeira para vigiá-lo durante uns certos períodos de tempo em que ele... não é bem ele. Intrigada, a enfermeira começa a perceber que não é um caso de múltiplas personalidades, mas um problema mais estranho. Jackman se transforma em outra pessoa, não apenas psicologicamente, mas também fisicamente, demonstrando habilidades extraordinárias e impressionantes. Esse alter ego tem uma personalidade própria e complicada, oras sendo ameaçador, perigoso e selvagem para em seguida ser protetor, incrivelmente astuto e articulado. Comentando a semelhança do caso com o mostrado no livro de Stevenson, essa personalidade acaba adotando o nome de “Hyde”.

Não parece um cara legal?
Daí pra frente, a trama se complica, envolvendo certas reviravoltas bem interessantes e curiosas, mas o grande destaque mesmo é a forma como é mostrada a diferença entre Jekyll, quer dizer, Jackman, e Hyde. Interpretados pelo mesmo ator (o irlandês James Nesbitt, pouco conhecido por aqui, lembrado talvez por sua participação em A Fortuna de Ned) os dois personagens são totalmente diferentes, e mesmo em uma cena passada numa sala escura, pode-se notar que não é mais o bom doutor que está ali, mas um Hyde tremendamente furioso.

Nesbitt não muda apenas sua voz ou despenteia o cabelo, mas parece aumentar o seu porte físico! Ele anda de forma diferente, usa linguagem corporal distinta para cada personalidade… até mesmo o olhar pra câmera é outro. Uma interpretação fantástica, que rendeu inúmeros elogios e indicações de prêmios para Nesbitt e para a série.
É só não deixá-lo irritado. Você não vai gostar
de vê-lo irritado...

Além disso, a simples noção de “um soro para separar o lado bom do lado mau da pessoa” foi aprimorada no genial roteiro (mais um trabalho magistral do genial Steven Moffat, que tem o meu respeito, com uma única exceção), que atualizou a história, colocou o(s) personagem(ns) em situações novas e mesmo assim manteve o clima de suspense meio sobrenatural e meio policial da história, com elementos dois gêneros, colocando mais alguns.

Apesar de se chamar Jekyll, o astro da série é, sem a menor sombra de dúvida, o “novo” Mr. Hyde. Um personagem complexo e simples ao mesmo tempo, ele não é exatamente maligno. Ele não é “mau porque é mau” ou porque “é desse jeito e acabou”, ele tem motivações e vontades diferentes do que está acostumado a encontrar em pessoas... normais, ele não tem travas morais ou questionamentos sociais, o que somado a um conjunto de habilidades físicas extraordinárias, o torna um ser muito, muito perigoso. Mesmo assim, você fica morrendo de vontade para ver o que ele vai fazer em certas situações, quase que torcendo pra ele (hmm... quase nada, fica é mesmo torcendo pra ele). E duvido que alguém não torça pro Hyde depois da cena no zoológico.

O box nacional com a série completa.
Mais uma vez, é uma série britânica genial que passou meio que batida por aqui, sendo exibida com muito pouco destaque, e ainda assim, num canal de TV a cabo. Como não tinha nenhum ator famoso, de filmes famosos, dificilmente chamaria a atenção das emissoras e das distribuidoras de filmes.

Animado com o sucesso de Sherlock, Life on Mars e Doctor Who, todos lançados pela distribuidora Log On, eu estava prestes a escrever pra eles, sugerir Jekyll como próximo lançamento, tentar fazer uma campanhazinha pela série, ou algo assim. E qual não foi a minha surpresa, ao entrar na página da Log On para mandar uma mensagem, de encontrar o anúncio (com direito a trailer, dá uma olhada aqui ó)... do lançamento do box de Jekyll!

Isso mesmo, Jekyll está a venda nas lojas brasileiras, em um box com os seis episódios, a série completa! Depois de tudo que eu escrevi, nem precisa dizer que é pra lá de recomendada, né? (puxa, do jeito que eu fico elogiando as séries britânicas aqui, vão pensar que eu só estou aqui pra fazer propaganda pra Log On...)

Uma versão tão bacana, tão legal e com atuações tão espetaculares que conseguiu mudar retroativamente minha opinião sobre a obra original! Mesmo com a desculpinha do soro, a proposta até que é interessante e pode render excelentes histórias. E sem esquecer que foi esse livro que inspirou Stan Lee a criar o Incrível Hulk.

Não parece que ele vai dizer
"Acredite, se Quiser"?
Agora, só me falta juntar coragem para conseguir assistir (sem rir) a versão com o Jack Palance.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Dois Homens Horríveis...

Ou nem tanto...

Essa pérola eu precisava colocar no Gabinete de qualquer jeito!

Enviado para mim pelo meu amigo e colega Fabiano Denardin, o "vídeo" (sim, entre aspas, porque tem só o som) mostra dois grandes monstros  clássicos, Bela Lugosi e Boris Karloff cantando We're Horrible Men.

Eles não eram homens horríveis, mas cantores horríveis! Ainda bem que a dupla não pensou em seguir a carreira musical...











Clique aqui para ouvir Bela e Boris cantando (por sua própria conta e risco...)


terça-feira, 24 de julho de 2012

Deus Salve a Rainha!

Apesar da recente comemoração dos 60 anos do reinado de sua majestade Elizabeth II, esta postagem não fala exatamente sobre a matriarca da família real inglesa.

Recentemente pude dar um pouco mais de atenção à séries e minisséries de origem inglesa. Claro que eu já gostava de diversas séries britânicas antes, sem falar nos inúmeros atores e atrizes fantásticos (que depois de algum tempo eram “descobertos” por Hollywood). O que sempre me chamou a atenção era o fato do filme (ou série, ou minissérie etc.) ser legal, bem escrito, bem dirigido, com bons atores etc.

E, também não era exatamente surpresa que atores britânicos se destacassem em suas atuações. Alguns dos meus atores clássicos favoritos, como Christopher Lee, Boris Karloff e Peter Cushing, são ingleses. Sem mencionar nomes atuais como Bill Nighy, Mark Strong, Simon Pegg, Andy Serkis, James Purefoy, David Tennant e James McAvoy (esses dois últimos escoceses, só para deixar claro e evitar qualquer problema regional).

Mesmo assim, foram duas séries que me chamaram a atenção e abriram caminho... ou melhor, me abriram os olhos para a existência de não apenas de bons filmes e atores, mas de geniais séries para a televisão: Doctor Who e Life on Mars. 



Um Senhor do Tempo


A primeira, Doctor Who, é a mais clássica e importante série para a Ficção Científica do cenário europeu, uma das mais extensas séries da história da televisão, que é citada como influência de alguns dos escritores que eu mais adoro, como Neil Gaiman, Alan Moore, Terry Pratchett, Michael Moorcock, Warren Ellis e Kim Newman (pra citar só alguns).

Doctor Who foi pioneira em vários aspectos, principalmente na utilização de roteiros inteligentes e sacadas geniais para explicar a trama (e as picaretagens da produção). Tudo gira em torno das aventuras do Doutor (apenas “o Doutor”), um alienígena viajante no tempo, que arrebanha diversos companheiros e visita vários momentos da História da Terra e de diversos outros planetas. Com a proposta inicial de ser uma série de ficção que poderia ter partes didáticas (já que eles mostrariam personagens históricos), a série foi lançada em 1963 pela BBC e se tornou um sucesso monstruoso, continuando com temporadas anuais até 1989 (com uma tentativa de revitalização com um longa-metragem em 1996).

Infelizmente, essa fase de Doctor Who nunca foi exibida no Brasil.

Em 2005, o produtor Russell T. Davis conseguiu trazer de volta a série, atualizada e com um ator conceituado (o excelente Christopher Eccleston) para o papel do Doutor. A aposta da BBC em recuperar uma de suas séries mais icônicas deu certo, e Doctor Who ganhou sua segunda temporada, agora com o carismático David Tennant no papel principal.

“Mas como assim, Saladino? Fica mudando o ator que faz esse tal de Doutor o tempo todo?” , me perguntará o leitor aturdido. Curiosamente... sim! No final da temporada de 1966, William Hartnell, que interpretava o Doutor, expressou o desejo de deixar a série. O produtor, que não queria acabar com o seriado, veio com a idea de que como o Doutor era um alienígena, ele tinha a capacidade de regenerar quando estava prestes a morrer, literalmente se tornou outra pessoa para evitar a morte. Assim, o seriado poderia continuar, com outro ator no papel de Doutor. Até hoje, onze atores viveram o alienígena, que seria o último dos Senhores do Tempo, sendo que um dos mais icônicos foi Tom Baker.
Tom Baker, o mais icônico Doutor.
Até já apareceu nos Simpsons.

Então, com a revitalização da série, comecei a acompanhar uma das melhores coisas de FC que já foi feita para a televisão. O produtor atual, Davis, conseguiu equilibrar muito bem o estilo camp da série e o tom atualizado e até pesado em certos momentos. Pessoas morrem em Doctor Who, coisas ruins acontecem, os personagens são complicados e vivos, e mesmo os alienígenas mostram personalidades incrivelmente humanas. Um dos temas mais complicados e arriscados de se lidar na ficção, a viagem no tempo, é abordado de forma magistral, em alguns roteiros que dão banho em muitos filmes.

Doctor Who arrebanhou uma enormidade de novos fãs, ganhou novas e novas temporadas e passou de suas fronteiras, chegando a entrar no restrito mercado norte-americano... e fazendo sucesso por lá! E, para minha surpresa, até mesmo aqui no Brasil temos Doutor Who passando em canal aberto, diariamente (exceto finais de semana), na TV Cultura!

Poucos meses atrás (em 16 de junho), tivemos em São Paulo a primeira convenção de fãs de Doctor Who, a Gallifreycon. E mesmo sendo um evento tremendamente específico, foi muito bom ver uma enorme quantidade de espectadores e fãs novos, muitos deles crianças, que graças a série se interessaram por ficção científica, literatura e assuntos mais diversos, como Física, História e etc.

Doctor Who é uma série incrível, e vai ter uma postagem só pra ela, acreditem. Ela foi a primeira a me chamar a atenção por sua qualidade impressionante.

Sam Tyler (ou John Simm), um policial
literalmente a frente de seu tempo

E um cara (mais ou menos) perdido no tempo


A outra série que me pegou pelo queixo e me surpreendeu totalmente com apenas um episódio (fora de ordem, visto acidentalmente), foi Life on Mars, não acidentalmente, também da BBC.

Inicialmente, eu achava (em minha total e preconceituosa ignorância) que Life on Mars era mais uma série cabeçuda, de premissa esquisita, personagens estranhos e atores que eu nunca tinha visto antes. E para o meu espanto, quando vi acidentalmente um episódio (e resolvi terminar de ver para saber como acabava), percebi que Life on Mars era cabeçuda, de premissa esquisita, personagens estranhos e atores que eu nunca tinha visto antes... mas que isso tudo era muito, MUITO bom!

Sam Tyler, um policial londrino, ao investigar um crime, sofre um acidente, é atingido por um carro e, sem maiores explicações, acorda em 1973, com seu carro tocando (em fita cassete) a música Life on Mars, de David Bowie. Tyler não percebe que a música dá uma dica do que ele vai passar, pois os documentos no carro indicam que ele continua sendo um policial, mas os costumes e metodologia são tão diferentes e alienígenas, que parece que Sam está em outro planeta.

Misturando ficção com policial, a série mostra Sam Tyler (interpretado magistralmente por John Simm) entrando em conflito com os costumes e práticas da época, onde testemunhas são intimidades (pelos policiais!), onde o conceito de assédio sexual não existe e a prática de mexer com as colegas de trabalho era comum e socialmente aceita. Os policiais que trabalham com o Sam beiram ser considerados vilões e canalhas, mas são tão bem escritos e interpretados, que conseguem gerar uma enorme simpatia com espectador. 

Gene Hunt. Você não
queria ele como seu chefe...
Um destaque especial fica para o superior de Sam, Gene Hunt (interpretado por Phillip Glenister) um policial que deveria ter sua foto do lado do verbete “politicamente incorreto” no dicionário. É incrível como um policial violento, corrupto, preconceituoso e autoritário pode acabar se tornando um dos personagens mais legais que apareceram na televisão nos últimos anos. Gene odeia o Sam Tyler, mas também acaba ganhando o seu respeito em certo ponto da série e muda o seu jeito de ser graças ao que ele vê no novato. Glenister arrasou na interpretação, tanto que seu personagem reaparece em Ashes to Ashes, a continuação da série, com uma história similar, só que nos anos 1980.

No decorrer da série, se intensifica a dúvida se Sam realmente voltou ao passado (e como isso aconteceu) ou se ele está em coma e tudo não passa de uma alucinação pra lá de complicada. Durante os crimes que Sam precisa resolver, ou ajudar a resolver, ele ouve frases que seriam de 2006 e vê coisas que não entende. Destoando completamente do estilo e visual realista da série, esses elementos pegam o espectador de surpresa e deixam ainda mais a sensação de tem algo muito errado com Sam Tyler.

A reconstituição do período é um capítulo à parte. Para nós brasileiros, chegou muito pouca coisa da Londres da década de 1970, sendo que nós fomos mais influenciados pelas tendências norte-americanas. Na série, é fascinante ver como era a vida do povo londrino. O povo mesmo, a maioria, e não apenas uma ou outra referência de alguma celebridade. Documentários raramente conseguem ser tão fiel ao espírito dos anos 1970 quanto Life on Mars.

Novamente abordando um tema complicado e que tem uma enorme facilidade de ficar muito ruim (viagem no tempo), a série não menospreza sua audiência, se desenvolve em roteiros inteligentíssimos e primorosamente bem escritos. As atuações, até mesmo dos personagens mais secundários, são inspiradas e dignas de todos os elogios possíveis. Em minha opinião, Life on Mars é uma das melhores coisas que já passou na televisão nos últimos tempos.

E o melhor é que...

Essas duas séries estão disponíveis para o público brasileiro! Doctor Who está passando na TV Cultura diariamente, e além disso, a box com a primeira temporada chegou as lojas pouco antes da Gallifreycon, e pode ser encontrada sem muita dificuldade. As duas temporadas de Life on Mars também estão disponíveis (em DVD e Blu-Ray), num preço bem razoável (na maioria das vezes). As duas séries foram trazidas pela Log On, distribuidora que também é responsável pelas versões nacionais de inúmeras séries e documentários da BBC.
O box nacional da primeira temporada
de Doctor Who, com Eccleston.
A primeira temporada de
Life on Mars, em DVD nacional















São duas séries incríveis que me mostraram que existem muitas outras por aí, esperando serem descobertas e devidamente apreciadas. Nas postagens seguintes, devo comentar algumas outras séries, verdadeiras pérolas inglesas, que eu tive a chance de ver e minhas impressões a respeito delas.

Por enquanto é só, e eu vou ali tomar um chá e depois volto com mais uma postagem quase britânica.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

No Livro Ficou Melhor...



Um dia desses, ouvi uma conversa no ônibus que me fez pensar um pouco. E sim, de vez em quando eu ouço as conversas alheias no ônibus, a caminho de casa. Podem me considerar um intrometido, mas é muito bom para qualquer um que escreve, para ajudar a montar personagens. Considero quase que um trabalho de pesquisa.

Mas, considerações bisbilhoteiras à parte, a conversa me chamou a atenção por um detalhe curioso; eram duas pessoas comentando sobre... livros que tinham lido e como os filmes não eram tão legais, e como eles preferiam os livros. Começaram falando do vindouro filme O Hobbit, de Peter Jackson, e depois desataram a trocar opiniões sobre a trilogia do Senhor dos Anéis e a série Harry Potter.

A partir daí, alguns leitores poderão dizer “E daí? Isso é bem normal, oras...”. Concordo. Mas, naquele instante, comecei a divagar um pouco. Eu meio que estou acostumado a ouvir no ônibus as pessoas comentando o que aconteceu nas novelas, futebol ou programas de televisão que eu não gosto muito. Fico bem feliz ao ver gente (ou melhor, o público) falando de livros, de uma forma legal e descontraída, até mesmo honesta.
O Hobbit...

Não se tratava de um povo nerd (ou aquelas pessoas que posam de nerds porque agora é descolado), mas gente que não parecia pertencer a nenhuma tribo específica, uma dupla que estava falando de como os livros eram melhores que os filmes, citando detalhes como “tal personagem aparece mais”, “isso fica mais claro” e “no filme ele ficou meio bobo”. Como diria um amigo meu, são praticamente “civis” (termo que eu acho engraçado).

Como jornalista e pretenso escritor, me alegra muito ouvir esse tipo de conversa. Vivemos em um país onde o hábito de se ler livros não é exatamente o mais popular e onde divulgar a literatura é um tanto quanto difícil. Ver (ou melhor, escutar) gente no ônibus comentando como livros são mais legais e melhores que filmes é algo que dá esperança de que, mesmo com todos os problemas que os escritores, autores, editores, editores e similares passam, não estejamos num cenário tão ruim, onde os livros estão sim recebendo alguma atenção.
... e O Hobbit.

Não critico quem esteja lendo os livros best-seller, como a série Harry Potter ou Jogos Vorazes, não sou um purista que torce o nariz e diz que isso é “literatura menor”. Esses lançamentos servem pra mostrar que livros são legais e divertidos e abrem caminho para outros livros. Isso é tremendamente importante para todos nós, não só autores e pretensos escritores, mas como para os leitores e para o país, pois ajuda na construção de um povo com mais cultura.
Harry Potter, o livro...
... e Harry Potter, o filme.

Gosto de cinema, filmes e adaptações. De verdade. Grandes filmes vieram de adaptações de grandes livros (e de alguns livros não tão bons assim). Não estou incentivando uma briguinha entre cinema e literatura, pois entendo que são duas mídias diferentes, com suas características próprias e etc. (sendo que “etc.” aqui significa “detalhes e discussão para uma outra postagem). A questão toda é encontrar gente conversando sobre livros, voluntariamente, fora de uma livraria ou biblioteca ou escola, porque é um assunto que gosta.


Eu fiquei feliz mesmo. E vou ficar ainda mais feliz quando, no futuro, alguém comentar que viu um filme baseado num livro meu, e que achou o livro muito melhor


segunda-feira, 12 de março de 2012

De volta aos trabalhos...



E olha que isso foi antes de começar
 a jogar World of Warcraft...
Eu disse que era um péssimo blogueiro. Fiquei um bom tempo sem colocar nada no Gabinete, nem uma palavrinha sequer sobre filmes, livros, jogos, quadrinhos, séries e outras coisas que fazem parte da minha vida. E tudo isso sem grandes motivos além de pura e simples falta de tempo.

Mas, como nem toda a preguiça do mundo dura pra sempre, eu estou de volta com alguns assuntos para comentar.

Viu só? Essa minha demora em postar algo nem foi tão ruim assim, me deu tempo de achar um monte de coisa interessante pra comentar. E, se tudo correr conforme o planejado, não fico mais tanto tempo sem publicar novos textos.

...e aos temas recorrentes

Um dos textos meus que rendeu uma boa discussão foi o sobre refilmagens. Curiosamente, vi dois filmes que ilustraram direitinho o que eu disse.

O Colin Farrell como o vampiro
pedreiro mais cafajeste possível...
Um deles mostrava como uma refilmagem pode ficar bacana e divertida, sem estragar as ideias do filme original, mas mostrando-as de outra forma, com outra visão. Estou me referindo a A Hora do Espanto 3D (Fright Night 3D), que atualizou e modernizou a história de terror com toques de comédia de um garoto que descobre que o vizinho que acabou de se mudar para a casa ao lado é um vampiro. Um bom elenco, um ritmo muito bem conduzido pelo diretor e um filme com uma boa dose de estilo próprio e momentos divertidos.

O outro filme serve pra mostrar exatamente como tudo pode dar errado. Não é exatamente uma refilmagem, mas uma prequel (termo feio, prefiro utilizar “prelúdio”, como o grande editor Fernando Lopes me ensinou): A Coisa (The Thing). O “original” de John Carpenter (que por sua vez era uma refilmagem de O Monstro do Ártico) marcou uma época em vários sentidos; estilo de narrativa, efeitos especiais, etc., e ainda hoje é considerado um dos melhores da ficção científica ou do terror. Um prelúdio daquela história simples e assustadora certamente daria um ótimo filme, não? Bem... não.

"Vou ficar fazendo cara de conteúdo
para ver se convenço..."
Esse prelúdio é um filme facilmente esquecível, onde tudo acontece rápido demais, sem convencer o espectador e com pressa. Parece que queriam ficar mostrando a tal da coisa (sem piadas de duplo sentido aqui) o tempo todo, ou o cenário, ou a nave legal, ou como eles gastaram em efeitos especiais... e esqueceram de pequenos detalhes, como história, roteiro, trama, personagens bacanas e – puxa, é mesmo! – assustar o espectador. Afinal, era pra ser um filme de terror, não? Em termos de ritmo e de “causar desespero num lugar inóspito e gelado que pode te matar”, Terror na Antártida (Whiteout), de 2009, se deu muito melhor. E nem tinha monstro. E tinha a Kate Beckinsale.

Se estava pensando em ver esse novo filme, melhor rever o antigo, do John Carpenter e que, mesmo tendo trinta anos, dá um banho no mais recente. Mesmo sem a Kate Beckinsale.