quinta-feira, 11 de junho de 2015

O Último Grande Monstro

Hoje foi anunciada a morte de Christopher Lee, que aconteceu no dia 7 de junho, devido a problemas respiratórios e no coração.
Lee como o Monstro de Frankenstein

O lendário ator, que para muita gente era o Saruman da série O Senhor dos Anéis e o conde Dookan de Guerra nas Estrelas (na trilogia mais recente), teve uma carreira cinematográfica imensa, participando de mais de 280 filmes, na maioria deles, como o vilão da história.
Na segunda metade da década de 50, Lee foi chamado pela Hammer, uma produtora britânica que queria fazer novas versões dos monstros clássicos do terror que tinham feito um enorme sucesso no cinema trinta anos antes, nos filmes da Universal, o grande estúdio cinematográfico de Hollywood.  Para esse “reboot” dos monstros clássicos, a Hammer contratou o jovem e promissor ator de teatro Christopher Lee, que tinha a altura certa para interpretar... o monstro de Frankenstein em A Maldição de Frankenstein (The Curse de Frankenstein, 1957).
Drácula
(nem precisava dizer, né?)

No ano seguinte, Lee faria o papel mais famoso de sua carreira: o Conde Drácula.
Sua interpretação ficaria tão marcada, que por décadas era a mais icônica da cultura popular. Até hoje, para a maioria, quando se fala “Conde Drácula”, a imagem que vem a cabeça é a de Christopher Lee nos filmes da Hammer. Lee emprestou seu rosto e seu olhar aterrador para o conde vampiro em dez filmes (sendo que inicialmente só queria fazer um), onde a história de Drácula foi contada de recontada de formas que Bram Stoker jamais imaginou. A fidelidade com o original nem sempre era a consideração principal dos filmes, mas isso pouco importava para o público, porque Lee estava lá, e ele era o Drácula, não importando o roteiro, então o filme era bom!

O ator que era o vampiro mais famoso dos anos 1950, 1960 e 1970 também interpretou outros monstros (além da criação do doutor Frankenstein); foi a múmia Kharis em A Múmia (The Mummy, 1959), Doutor Jekyll e Senhor Hyde em O Soro Maldito (I, Monster , 1971), o próprio diabo em Katarsis (1963), o assustador Fu Manchu (em quatro filmes) e monge louco Rasputin em Rasputin, o Monge Louco (Rasputin, The Mad Monk, 1966).
Scaramanga, botando medo em James Bond

E também era formidável quando o assunto era vilões mais humanos. Sua atuação como Scaramanga, o antagonista de James Bond em 007 contra o Homem da Pistola de Ouro (The Man with a Golden Gun, 1974) o colocou entre os melhores vilões de 007.

Lee conseguia passar do aristocrata elegante e refinado para o monstro desumano e cruel com uma facilidade impressionante. Apesar de ser facilmente reconhecido, seja pelo seu porte assustador, sua voz grave e profunda ou seu olhar furioso, cada um de seus vilões era diferente e marcante. Por esse motivo ele consegue ser lembrado por muitos como Scaramanga, como Conde Dookan e Saruman, personagens completamente diferentes, mas que agora não conseguimos imaginar com outro ator.
Fu Manchu

Mesmo interpretando monstros, Lee era uma pessoa completamente diferente dos seus papéis. De família nobre (sua mãe era condessa, o que tornava Lee, tecnicamente, um conde), teve uma educação completa de um cavaleiro que se preze. Documentos atestam que ele é um descendente (distante) de Carlos Magno e, durante a Segunda Guerra Mundial, atuou como agente secreto da Inglaterra, sendo condecorado várias vezes por serviços prestados à Coroa.
Rasputin

O grande monstro, o conde Drácula do cinema, era também um homem de artes. Adorava literatura (chegou a conhecer J. R. R. Tolkien pessoalmente), teatro, pintura, escultura, música e tinha jardinagem como seu hobby preferido. Na música, era um fã de heavy metal e chegou a gravar quatro discos!

Nunca parou de trabalhar. Sempre atuando, sempre engrandecendo filmes (que nem sempre eram tão bons assim) com sua presença. Olhava e tratava com um carinho enorme seus fãs, fossem dos filmes de terror antigos, fossem da nova trilogia de Guerra nas Estrelas.
Lee foi um dos maiores monstros do cinema, mas na vida real foi uma das pessoas mais incríveis e inesquecíveis que já existiu. 

O mundo hoje perdeu seu maior vampiro. E todos estão tristes por isso.
Lee e Vincent Price, entre filmagens.
Gosto de lembrar dos dois assim.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Uma Editora do Lado Sombrio

Este blog é um lugar onde eu gosto de falar sobre o gênero terror, especialmente em filmes e livros. Basicamente, sobre os filmes e livros que eu gosto, e assuntos relacionados a eles, aos atores, diretores e algumas divagações pseudo filosóficas e opinativas sobre o gênero.
E, já que a minha linha de publicações é essa, preciso falar sobre a editora DarkSide. Aliás, estou até meio atrasado. A Darkside se apresenta como a primeira editora brasileira dedicada inteiramente ao terror e fantasia. Não sei ao certo se a afirmação é correta, mas uma coisa eu posso dizer, eles começaram muito bem com as suas primeiras publicações, e continuam fazendo um trabalho incrível com os títulos que estão publicando. Livros absolutamente lindos, muito bem cuidados, diagramados, traduzidos, adaptados e com um acabamento (papel, capa, fotos, detalhes) formidável.
Olha só que caixas bacanudas!

Meu primeiro contato com a Darkside foi com o livro  Evil Dead – A Morte do Demônio [Arquivos Mortos], que conta os bastidores e como foi o nascimento do filme A Morte do Demônio (Evil Dead, 1981) e suas continuações, escrito por Bill Warren. O livro é um estudo profundo e muito divertido sobre Sam Raimi, sua formação, seus amigos, o que o levou a filmar Evil Dead e todos os problemas que teve, como eles foram resolvidos, curiosidades etc. Imperdível para quem gosta da franquia Evil Dead. E tudo isso numa edição linda de morrer, lançada em duas versões (classic edition, mais simples e limited edition, em capa dura). Edição deliciosa de se ler, e com um cuidado que só confirma o carinho anunciado da editora pelo gênero. Uma publicação de excelente qualidade voltada para os fãs de terror, o que é uma coisa bem rara.

Verificando o que mais a Darkside tinha para oferecer, tive uma mui grata surpresa, porque além do meu (agora adorado) livro sobre Evil Dead, descobri que eles também tinham publicado um livro semelhante sobre a franquia de filmes O Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre), sobre a franquia de Sexta-Feira 13, o livro Os Goonies (sim, o do filme), biografias de J. R. R. Tolkien, Stephen King, do Black Sabbat (a banda), a trilogia dos Espinhos de Mark Lawrence, dois livros sobre serial-killers escrito pela Ilana Casoy, as histórias originais de Tubarão, Psicose e A Noite dos Mortos-vivos. Isso entre muitos outros lançamentos, alguns que ainda estão para sair.
A Força também está com eles.
Ou seja, praticamente uma lista de livros que eu preciso ter! Uma clara dedicação ao gênero do terror e da fantasia, com um respeito, atenção e cuidado que deve ser aplaudido. Além disso, a Darkside se esforça em levar ao público livros que estavam fora de catálogos fazia um bom tempo (como é o caso de Tubarão, de Peter Blenchey, e Psicose, de Robert Bloch) e novidades que dificilmente teríamos contato. E tem mais, eles investem em autores nacionais, como é o caso de Ilana Casoy  e outros (que vou falar na próxima postagem).

Uma editora cujo trabalho merece ser elogiado e prestigiado por qualquer fã de terror que se preze. Uma iniciativa como esta precisa ser incentivada, pra que cresçam e continuem por muitos anos, mostrando que o terror e a fantasia são gêneros fortes e que devem ser levados a sério.
Então, que tal dar uma checada nas publicações pra lá de sensacionais da editora no site deles (e, é claro, procurar na livraria mais próxima)?
O site da editora é este aqui.


P.S.: Não, eu não recebi nada para elogiar os caras, só gostei bastante dos livros e vou falar mais das publicações e lançamentos deles nas próximas postagens.

domingo, 8 de março de 2015

A Noiva

Apesar de ser publicada no dia seguinte, esta postagem foi escrita no dia 8 de março, o Dia Internacional da Mulher e, como homenagem, ela fala de duas personagens incríveis, uma fictícia e uma real.

A Noiva de Frankenstein

Dr. Frankenstein, a Noiva e o Dr. Pretorius.
Seguindo o sucesso de Frankenstein (1931), o diretor James Whale retomou o tema quatro anos depois, criando uma história onde Mary Shelley imagina uma continuação para os feitos do doutor Henry Frankenstein e sua criação, com o insano doutor conhecendo outro médico dedicado a criar vida, e ambos encontram o monstro feito por Henry, que foi dado como morto no final do filme anterior, e - com um certo incentivo - decidem criar uma parceira para ele. Como qualquer filme envolvendo cientistas que desafiam as leis naturais, tudo dá errado no final.


A Noiva de Frankenstein (1935) é considerada por muitos (inclusive por mim) como um dos melhores filmes da safra de Monstros Clássicos dos Estúdios Universal. Não se contentando em fazer uma reles sequência, Whale aumentou tudo o que pode. O Monstro agora fala (e Karloff deixou os olhares ainda mais assustadores que antes) e tem uma compreensão maior do que ele quer e - no final - do que ele é de verdade. As imagens são mais emblemáticas e vários momentos se tornaram momentos inesquecíveis da Sétima Arte. Para cutucar com vara curta a censura da época, Whale coloca no filme diálogos provocantes, imagens que normalmente não podiam estar presentes em filmes de terror e um dos primeiros personagens homossexuais do cinema (lembre, estamos falando de 1935).

Elsa como Mary Shelley
Mas, se destacando sobre todas as imensas qualidades do filme está a personagem do título, a mulher criada pelos dois médicos loucos: a Noiva. A única mulher entre os Monstros Clássicos da Universal, a Noiva foi um choque para a audiência da época, que esperando uma outra criação horrenda e deformada do Dr. Victor, ficou surpresa e assustada. A Noiva uma criatura absolutamente linda, com um visual marcante e - ao mesmo tempo - imponente e elegante, que ficou marcado na história do cinema como uma das mais incríveis criações do cinema fantástico de todos os tempos. A interpretação de Elsa Lanchester deu a criatura um ar estranho, quase alienígena, expressões exageradas (mas coerentes) e um grito que certamente ecoou por anos nos ouvidos de todos na plateia.

A única mulher entre os Monstros Clássicos da Universal, A Noiva foi a estrela do melhor filme do estúdio, e mesmo sem matar ninguém, entrou para história do terror de forma esplêndida.

Elsa Lanchester

Tão formidável quando a personagem que interpretou, Elsa Lanchester deve ser lembrada por sua vida e carreira. Estudou dança com Isadora Duncan (que ela odiava) e depois passou a se dedicar ao teatro, onde conheceu Charles Laughton, com quem se casou em 1929. Ela trabalhou em vários filmes e peças britânicas e a qualidade de seu trabalho levou Whale a convidá-la para A Noiva de Frankenstein, onde ela fez dois papéis (a escritora Mary Shelley e a Noiva).

 Sua participação em  Mary Poppins
Graças a visibilidade que recebeu em seguida, participou de mais de 40 filmes, incluindo O Fio da Navalha (The Razor's Edge, 1946), O Inspetor Geral (The Inspector General, 1949) e Mary Poppins (1964). Também participou de séries para televisão como I Love Lucy, The Man from U.N.C.L.E. e Night Gallery (Galeira do Terror).


Além de sua carreira, Elsa era uma figura polêmica. Criticando abertamente posturas e atitudes do meio cinematográfico (e de Hollywood em especial), ela era frequentemente ignorada pelos críticos e e "especialista do ramo" da época. Filha de comunistas assumidos e filiados (novamente, lembre que estamos falando de 1935), suas opiniões eram tidas como incômodas e "desagradáveis". Mas nada disso a impediu de ter a vida que queria, como queria. Seu casamento com Charles Laughton era aberto e ambos tinham amantes, com o conhecimento e consentimento um do outro (lembra que eu disse? Estamos falando de 1935). Elsa e Charles permaneceram casados até 1962, quando Laughton morreu. Havia muitos boatos sobre o casal, mas, novamente, eles não impediram que os dois fossem felizes até o final da vida de ambos.

O olhar perturbador e fascinante da Noiva.
Elsa Lanchester era uma mulher pequena (de apenas 1,64 m) e que não tinha a típica beleza que se exigia na época de uma atriz de cinema. Mas ela nem se importou com isso. Usando uma força de personalidade e de atuação ela ignorou os padrões da época e fez o que queria. Ela era uma mulher com um impacto tão grande, que deixou sua marca na história da cinema, mesmo que muita gente não saiba seu nome.

Mas que, com um olhar e um grito, conseguiu ser lembrada para sempre.

domingo, 1 de março de 2015

Restauração no Gabinete!

Bom... não exatamente neste aqui...

Semana passada a BBC noticiou a exibição de uma nova restauração de Das Cabinet des Dr Caligari (O Gabinete do Dr. Caligari, de 1920). O link para a reportagem (em inglês), está no final desta postagem.
Conrad Veidt, interpretando o sonâmbulo Cesare

A restauração foi feita a partir dos negativos do filme, e foi tomado todo um cuidado especial para que o resultado final fosse o mais próximo possível do que as plateias de 1920 viram no cinema. Além de uma qualidade maior da imagem, que permite ver melhor detalhes de cenário e vestuário e das interpretações dos atores (o que por si só já valeria a pena), podemos agora ver que esse filme mudo tem.. cores!

Apesar de ser um filme em preto e branco, o Gabinete era mostrado com partes de sua narrativa com tons de cores, vermelho, azul, amarelo e outras, para dar mais peso à emoção que queria se passar para o espectador. Deste jeito, é possível ver o filme de uma maneira completamente diferente, como é mostrado em comparações e imagens na reportagem da BBC.
Cena da versão restaurada de O Gabinete do Dr. Caligari.

O Gabinete do Dr. Caligari é um dos filmes mudos mais influentes da história do cinema, considerado por muitos como o primeiro verdadeiro filme de terror (ou suspense), e um dos maiores expoentes do Expressionismo Alemão. Muitos recursos e elementos que são comuns hoje em filmes (ou séries) de suspense, terror e crime, apareceram pela primeira vez no cinema em O Gabinete, sendo que um dos mais marcantes foi a reviravolta do final (o chamado plot twist), aquela que deixa a audiência de queixo caído.

Cores assustadoras num filme preto e branco.
É simplesmente fantástico que hoje se consiga ver essa obra incrível da mesma forma que ela foi exibida em 1920. É um pedaço da história do cinema (e dos filmes de terror) que está sendo recuperado e preservado.

Uma excelente notícia para os fãs de cinema e de filmes de terror, e uma boa forma de retomar as publicações neste blog.

Confira aqui a  Restauração de Das Cabinet des Dr. Caligari .

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Uma Situação Crítica


Na minha postagem mais recente (que agora já não é tão recente assim), eu compartilhei um artigo de Vincent Price reclamando do tratamento da crítica para os filmes de terror. Um artigo publicado em 1963, no qual o Rei do Grand Guignol fazia considerações pouco lisonjeiras aos ditos críticos de cinema da época, que  deveriam começar a levar a sério o gênero do terror.

Price era famoso por ser um perfeito cavalheiro (além de suas atuações divertidas), um parâmetro de boa educação e finesse. Era realmente muito raro encontrar momentos onde ele perdia a sua compostura e demonstrasse qualquer sinal de impaciência. Mas, no texto que publiquei, nota-se a insatisfação do ator com a crítica (dita) especializada em cinema. 

Outra coisa que pode-se notar é a impaciência dele com a exaltação dos críticos do “method acting” e os chamados  “method drama”. Este era um sistema de atuação que estava com algum destaque na época, muito influenciado por técnicas e sistemas de atuação de Constantin Stanislavski e Lee Strasberg, onde o ator utiliza um processo de imersão para criar personagens mais realistas. Price era um ator clássico, com raízes shakespearianas, e com um imenso orgulho do seu estilo histriônico, totalmente adequado a grande maioria dos filmes de terror que fazia e era evidente que seria bem contrário ao method acting.

Não que o sistema seja ruim (muito pelo contrário!), mas a questão aqui não é qual estilo de atuação é melhor que o outro ou nada disso. A questão é a preferência de um em detrimento do outro, e quais critérios usados pra isso, por profissionais que (idealmente) não deveriam ter uma preferência pessoal ao exercerem a função que escolheram como seu trabalho, sua profissão.

Olha só como os críticos deixaram o Tio Vinnie...
E o que me deixou relativamente impressionado, é ver que isso acontecia em 1963… e que continua acontecendo hoje, cinquenta anos depois!

Um crítico de cinema deveria ser uma pessoa preparada para avaliar um filme da maneira mais completa possível, para emitir uma análise especializada, embasada, com argumentos e elementos técnicos, que deveria servir de orientação para uma pessoa interessada em saber se o filme vale a pena, ou que quer apenas saber mais a respeito do que vai ver no cinema.

Claro que isso é a teoria. E claro também eu estou me baseando pelo que seria a coisa ideal. Existem cursos de faculdades dedicados especificamente para a crítica de arte, cursos que ensinam como se compreender e analisar arte. Por diversos motivos que levariam o tempo de um… curso de faculdade para explicar, o cinema também entra na categoria da arte, principalmente no que diz respeito a crítica. Ou melhor, deveria entrar (notou que eu estou falando várias vezes “deveria”, né? É de propósito).

Este aqui foi considerado um filme menor...
mas só quando Steven Spielberg não
era famoso e influente em Hollywood.
Hoje a crítica considera um clássico.
Mas, uma das coisas que me irrita bastante quando vejo uma crítica de cinema, é a falta de embasamento para se analisar um filme. Os críticos mais famosos, conhecidos e badalados, raramente fundamentam suas opiniões nos elementos essenciais e necessários de uma crítica, aqueles que deveriam ter aprendido em uma faculdade, ou pelo menos, se interessado em conhecer, aprendendo de alguma outra forma. A grande parte da crítica é baseada simplesmente no gosto pessoal de quem escreve ou, nos casos mais vergonhosos, copiando outras críticas de nomes mais conhecidos da área, seguindo a moda de elogiar ou detestar determinados filmes do momento.

Aí, me vem aquele leitor e me diz “mas Saladino, qual o problema do cara escrever a opinião dele?”, e eu digo que não tem problema nenhum. Quando a pessoa faz isso deixando claro que é o gosto pessoal dele, uma opinião, é algo totalmente diferente de dizer profissionalmente que o filme é bom ou ruim. Note que a palavra-chave aqui é “profissionalmente”. Qualquer um pode dar sua opinião, mas o crítico assumiu o papel de profissional da opinião (um termo bem contraditório, se pararmos pra pensar), abraçando os seus louros. Mas, deveria então, conhecer pelo menos as responsabilidades que também acompanham esse título.

Raramente eu vejo um crítico entender a proposta do filme, avaliar as referências utilizadas, o estilo em questão, os elementos essenciais do gênero e se a execução do filme cumpriu o seu propósito e sua intenção.  Eu vejo isso, mas nos filmes do gênero que o crítico gosta (e faz questão de anunciar publicamente isso), mas não em outros. Sendo bem claro, gêneros como terror, comédia e ficção, são sempre deixados de lado, considerados indignos da grande crítica. Afinal, pra esses críticos, esses gêneros parecem não ser cinema. Se o cara é crítico de cinema, deveria entender e analisar todos os gêneros, ou então dizer que é crítico de cinema de drama, de arte etc.

Já presenciei um crítico dizer que achou um filme fraco porque tinha o estilo “muito videogame”, mas o filme em questão era justamente a adaptação do jogo Silent Hill (que, para quem não sabe É um jogo de videogame) para o cinema! Essa pessoa não se deu ao trabalho de pensar por alguns segundos que o longa deveria ter a mesma estética do jogo? Que deveria remeter ao jogo que o originou? Que era exatamente essa a proposta? Resultado: uma crítica feita com base em gosto pessoal, que não leva em consideração justamente o público para qual o filme foi feito!

Cinquenta anos se passaram e ainda temos muitos, mas muitos problemas quando paramos pra ler as críticas de cinema e com toda a mística que existe ao redor da figura do crítico de cinema. Grandes nomes chegam a ter a cara de pau de mudar sua avaliação, dependendo da mídia (ou canal) onde estão falando e do momento. Por exemplo: um certo crítico famoso, durante os primeiros dias de exibição de O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel fez comentários mornos e cinzentos a respeito do filme, dizendo que era uma aposta ousada e não falando absolutamente nada positivo sobre a obra. Três anos depois, quando a franquia O Senhor dos Anéis já tinha se provado como um sucesso histórico e O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei concorria a ONZE Oscars, o mesmo crítico, durante a entrega dos prêmios, afirmou que sempre tinha torcido pela trilogia, pelo trabalho do diretor, que acompanhava a carreira dele e que todos os Oscars que ganhou era um  reconhecimento merecido.
"Quer dizer que a minha atuação só ficou boa no terceiro filme?"

Como assim???

Para quem fica revoltado com os pseudocríticos que infestam a mídia (impressas, visuais , virtuais etc.) por aí, vale lembrar que esse problema não é de hoje, e que já chegou a acabar com a paciência de gente com Vincent Price. Crítica que, no lançamento, trucidou diversos filmes (como Psicose, Planeta dos Macacos e Veludo Azul) que ela mesma depois reconheceria tempos depois como grandes clássicos importantíssimos na história da Sétima Arte.

Então, sobra para nós algumas atitudes a se tomar. Dar para a crítica (dita) especializada a devida atenção, ou seja, a mesma dada a qualquer pessoa que opina sobre um filme, considerando seus gostos, preferências e etc., tirando-a do pedestal de “grande especialista em cinema”.

Podemos também ignorá-la completamente e conferir os filmes nós mesmos, formando a nossa opinião, comentando e discutindo nossas sensações a respeito, fazendo isso com os amigos, em reuniões, conversas, páginas na internet, redes sociais etc. Tudo isso com educação, claro, lembrando que são gostos diferentes, opiniões diferentes que merecem alguma consideração e reflexão (coisa que muito crítico não faz).

Afinal, não é coincidência que “crítico” seja uma palavra com um significado não muito positivo.

Olha outro que sofreu
nas mãos dos críticos...
P.S.: Antes que alguém me… critique,  eu escrevi este artigo como uma reclamação/desabafo dos pseudocríticos que fazem um grande esforço para se mostrar como seres superiores que entendem cinema de uma forma diferente que nós, reles mortais. E sim, eu sei que existem uns poucos críticos de cinema que são excelentes e não fazem isso. Este artigo não é pra eles.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Defendendo os Filmes de Terror



Esta imagem foi publicada em dois excelentes tumblrs que eu sigo, o Where Beauty & Terror Dance e o GreGGory’s SHOCK! THEATER Aliás, ambos recomendadíssimos, assim como o tumblr do roteirista Steve Niles, o responsável pelo assustador 30 Dias de Noite (os quadrinhos que deram origem ao filme de mesmo nome, igualmente assustador). O site dele foi indicado como tendo publicado também a imagem abaixo, mas eu não encontrei.

A imagem é, na verdade, um artigo publicado em 1963 (não sei ao certo em qual revista), onde Vincent Price defende os filmes de terror.

Pra facilitar a vida de tudo mundo, eu coloquei uma tradução aproximada do texto logo abaixo da imagem.

Hmmm... tem muita coisa a se falar sobre esse artigo, e algum contexto a se deixar claro, então vou guardar pra comentar na próxima postagem (já que a tradução ficou bem grandinha).



Tradução (meio que aproximada e adaptada)

Vincent Price deixa de lado a maquiagem de Hollywood para discutir os filmes de terror.


Em Defesa dos Filmes de Terror

por Vincent Price

   Já é hora de os críticos de filmes de cinema começarem a levar a sério os chamados filmes de “terror” ou “horror”, ou seja, os legítimos filmes desse gênero baseados em clássicos reconhecidos ou histórias originais de nossos principais escritores.

   Duas coisas já foram estabelecidas sobre esses excitantes produtos da indústria cinematográfica: o público e o os profissionais atuando neles os levam a sério e se divertem com eles. Grandes produtoras de filmes, como a American-International Pictures, confirmam que a maioria do público apoia tais filmes, como Mansão do Terror (The Pit and the Pendulum, 1961), Obsessão Macabra (Premature Burial, 1962) e Muralhas do Pavor (Tales of Terror, 1962), todos baseados em obras clássicas de Edgar Allan Poe.

   Por mim, e falo por uma maioria de atores sérios, esses filmes de Poe são divertidos de se fazer e são uma grande fonte de satisfação para mim como ator. Eles representam um grande desafio dramático para mim que filmes comuns, com sua realidade “superficial”, não conseguem oferecer.

   O verdadeiro desafio para qualquer ator digno da sua profissão é a oportunidade de retratar de maneira convincente a “inrealidade”.  Afinal de contas, esta não é a premissa original de atuar, a raison d’etre, ou razão de ser, do ator, a arte do faz de conta?
   
   Um caso perfeito é o meu filme mais recente, O Corvo (The Raven, 1963), baseado no excelente poema de terror de Poe. Eu ainda tive o privilégio adicional de trabalhar neste filme com dois dos melhores atores de Hollywood; Peter Lorre e Boris Karloff, e tenho certeza de que eles também apreciaram o desafio de tornar Edgar Allan Poe crível tanto quanto eu.

   Diferente de outros filmes para o cinema, os filmes de terror ou horror oferecem para os atores sérios a oportunidade única de exercitar seu ofício e testar criticamente sua habilidade de tornar o inacreditável crível.

   Eu também acredito que filmes como O Corvo são importantes para a cultura americana em tempos em que o “método de atuação”, e as histórias sórdidas que o acompanham, é considerado um reflexo verdadeiro da vida americana.  Na verdade, esses “dramas do método” representam apenas uma pequena parcela de nosso meio.

   É nessa época que a qualidade de contos de fada dos escritos de Poe fornece uma válvula de escape divertida, saudável e muito necessária para o público americano.

   Que aqueles que condenam os filmes de terror e suspense lembrem também que, assim como os faroestes, esse tipo de diversão foi responsável pelo sucesso da nossa grandiosa indústria cinematográfica.

  Por mim, eu prefiro levar os jovens a ver um filme de Edgar Allan Poe a qualquer momento do que sujeitá-los aos amores e perversões dos nauseantes habitantes das sarjetas e dos rincões da América. E acredito que a maioria dos americanos decentes também pensa da mesma forma a respeito de divertimento.

   Que tenhamos mais histórias criativas de terror produzidas com nossas grandes mentes e talentos, e menos épicos de decadência corruptores, que apenas consomem nosso tempo.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Sobre Médicos, Monstros e Personalidades Difíceis


O livro O Médico o Monstro (cujo título original é muito mais legal: The Strange Case of Doctor Jekyll and Mister Hyde, que seria mais ou menos O Estranho Caso de Doutor Jekyll e Senhor Hyde), de  Robert Louis Stevenson, é indiscutivelmente um grande clássico da literatura, e uma das bases do gênero fantástico (ou terror, dependendo de algumas considerações). A obra foi adaptada para dezenas de versões no teatro e para o cinema também, gerando espetáculos fantásticos, verdadeiros desfiles de grandes atuações.
Olha o vovô da Drew Barrymore
como o bom doutor no filme de 1920

Confesso que, entre as histórias dos monstros considerados com clássicos, essa nunca foi uma das minhas favoritas.

Concordo que os grandes atores que encarnaram o personagem, desde o lendário John Barrymore (eu sei que tiveram outros antes dele, mas eu gosto de lembrar dele como o primeiro a ser lembrado, oras), passando por Frederich March (ator do clássico de 1931, que ficou mais icônico) até Spencer Tracy, Michael Caine e Jack Palance. Até mesmo Boris Karloff já interpretou o médico de duas personalidades, na comédia Abbott e Costello encontram Dr. Jekill e Mr. Hyde (de 1953).  São performances inesquecíveis e marcantes, e não tem como falar mal do talento dos atores citados (talvez do Jack Palance...), mas o problema, pra mim, nunca foram os atores, mas a história.

Karloff, assustando Abbott e
Costello como dr. Jekill.
Eu, mesmo quando era bem mais jovem, não conseguia “comprar” a história de um médico que tinha feito uma fórmula que eliminasse o seu lado mau, como se fosse uma doença ou uma toxina. Ora, ser bom ou mau depende de escolhas feitas pela pessoa, e os próprios conceitos de “bom” ou “mau” variam muito, de acordo com a pessoa, cultura, tempo, educação etc. E também não via o Mister Hyde suficientemente maligno para ser a encarnação de toda a maldade do Doutor Jekyll. A história me soava falsa, meio exagerada. Se eu dissesse o enredo básico para um editor, ele jamais aceitaria publicá-la.

Então, se eu não gosto, por que raios estou enrolando tanto pra explicar isso? Simples, porque mesmo eu não gostando da história original, acabei colocando entre as minhas séries favoritas dos últimos tempos justamente uma versão do famoso caso estranho do doutor Jekyll e Mr. Hyde. Pois é, eu percebo a ironia de tudo isso…

Acidentalmente, vi passando na TV a cabo (no Multishow, se não me engano) um episódio de Jekyll, minissérie em seis episódios que trazia a história do pobre doutor bonzinho e seu alter ego malvado para os dias atuais. Ou pelo menos atual na época, já que a série é de 2007.  E, pra variar, a série era uma produção da BBC.

Em Jekyll, um preocupado doutor Tom Jackman contrata uma enfermeira para vigiá-lo durante uns certos períodos de tempo em que ele... não é bem ele. Intrigada, a enfermeira começa a perceber que não é um caso de múltiplas personalidades, mas um problema mais estranho. Jackman se transforma em outra pessoa, não apenas psicologicamente, mas também fisicamente, demonstrando habilidades extraordinárias e impressionantes. Esse alter ego tem uma personalidade própria e complicada, oras sendo ameaçador, perigoso e selvagem para em seguida ser protetor, incrivelmente astuto e articulado. Comentando a semelhança do caso com o mostrado no livro de Stevenson, essa personalidade acaba adotando o nome de “Hyde”.

Não parece um cara legal?
Daí pra frente, a trama se complica, envolvendo certas reviravoltas bem interessantes e curiosas, mas o grande destaque mesmo é a forma como é mostrada a diferença entre Jekyll, quer dizer, Jackman, e Hyde. Interpretados pelo mesmo ator (o irlandês James Nesbitt, pouco conhecido por aqui, lembrado talvez por sua participação em A Fortuna de Ned) os dois personagens são totalmente diferentes, e mesmo em uma cena passada numa sala escura, pode-se notar que não é mais o bom doutor que está ali, mas um Hyde tremendamente furioso.

Nesbitt não muda apenas sua voz ou despenteia o cabelo, mas parece aumentar o seu porte físico! Ele anda de forma diferente, usa linguagem corporal distinta para cada personalidade… até mesmo o olhar pra câmera é outro. Uma interpretação fantástica, que rendeu inúmeros elogios e indicações de prêmios para Nesbitt e para a série.
É só não deixá-lo irritado. Você não vai gostar
de vê-lo irritado...

Além disso, a simples noção de “um soro para separar o lado bom do lado mau da pessoa” foi aprimorada no genial roteiro (mais um trabalho magistral do genial Steven Moffat, que tem o meu respeito, com uma única exceção), que atualizou a história, colocou o(s) personagem(ns) em situações novas e mesmo assim manteve o clima de suspense meio sobrenatural e meio policial da história, com elementos dois gêneros, colocando mais alguns.

Apesar de se chamar Jekyll, o astro da série é, sem a menor sombra de dúvida, o “novo” Mr. Hyde. Um personagem complexo e simples ao mesmo tempo, ele não é exatamente maligno. Ele não é “mau porque é mau” ou porque “é desse jeito e acabou”, ele tem motivações e vontades diferentes do que está acostumado a encontrar em pessoas... normais, ele não tem travas morais ou questionamentos sociais, o que somado a um conjunto de habilidades físicas extraordinárias, o torna um ser muito, muito perigoso. Mesmo assim, você fica morrendo de vontade para ver o que ele vai fazer em certas situações, quase que torcendo pra ele (hmm... quase nada, fica é mesmo torcendo pra ele). E duvido que alguém não torça pro Hyde depois da cena no zoológico.

O box nacional com a série completa.
Mais uma vez, é uma série britânica genial que passou meio que batida por aqui, sendo exibida com muito pouco destaque, e ainda assim, num canal de TV a cabo. Como não tinha nenhum ator famoso, de filmes famosos, dificilmente chamaria a atenção das emissoras e das distribuidoras de filmes.

Animado com o sucesso de Sherlock, Life on Mars e Doctor Who, todos lançados pela distribuidora Log On, eu estava prestes a escrever pra eles, sugerir Jekyll como próximo lançamento, tentar fazer uma campanhazinha pela série, ou algo assim. E qual não foi a minha surpresa, ao entrar na página da Log On para mandar uma mensagem, de encontrar o anúncio (com direito a trailer, dá uma olhada aqui ó)... do lançamento do box de Jekyll!

Isso mesmo, Jekyll está a venda nas lojas brasileiras, em um box com os seis episódios, a série completa! Depois de tudo que eu escrevi, nem precisa dizer que é pra lá de recomendada, né? (puxa, do jeito que eu fico elogiando as séries britânicas aqui, vão pensar que eu só estou aqui pra fazer propaganda pra Log On...)

Uma versão tão bacana, tão legal e com atuações tão espetaculares que conseguiu mudar retroativamente minha opinião sobre a obra original! Mesmo com a desculpinha do soro, a proposta até que é interessante e pode render excelentes histórias. E sem esquecer que foi esse livro que inspirou Stan Lee a criar o Incrível Hulk.

Não parece que ele vai dizer
"Acredite, se Quiser"?
Agora, só me falta juntar coragem para conseguir assistir (sem rir) a versão com o Jack Palance.